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  • Fabio Alperowitch

O verdadeiro papel dos institucionais em ESG

(Artigo publicado na Revista Investidor Institucional)


O vocábulo verdadeiro não foi inserido no título deste artigo ao acaso. Se há um papel verdadeiro, podemos inferir que haja dúvidas ou má compreensão sobre qual seja ele, sendo então este debate o objetivo desta leitura.


Para contextualizar, cabe rememorar que a sustentabilidade não tem nada de novo. A novidade é como ela tem sido tratada pelas empresas. Antes confinada aos setores de conformidade, agora alçada à mesa dos CEOs. Antes preocupada com a obtenção de licenças ambientais ou prevenção de multas, agora compreendida como agenda de criação de valor e gestão de riscos, para dizer o mínimo.


Curiosamente, para muitos investidores institucionais a integração ESG está trilhando o mesmo rumo que a sustentabilidade erroneamente seguiu no mundo corporativo: o da conformidade e não o da agenda de criação de valor. Esta é uma visão antiga e superada.


No mundo, (i) muitos investidores institucionais adotaram a agenda ESG por entenderem que faz parte do seu papel criar impacto positivo na sociedade. Outros (ii) abraçaram a filosofia ESG para evitarem riscos e questões reputacionais. Há também um grupo (iii) que aderiu ESG por uma questão pragmática: os retornos são superiores, sendo então uma excelente alocação de capital. Mas, há também os (iv) que adotaram este caminho apenas por ser bem-visto, em uma disparatada atitude marqueteira. Cabe, desde já, a reflexão aos institucionais brasileiros para entender a qual grupo pertencem, sendo este artigo dirigido aos três primeiros tipos.


Independente da motivação que os tenha trazido para esta agenda, a incorporação da mesma é feita de forma distinta entre as instituições. Por exemplo, há os que investem apenas em ativos aderentes às práticas ESG. Outros entendem o seu papel no espectro oposto: o de investir em ativos deficientes nos assuntos ESG e tornarem-se ativistas para a transição de agenda.


Ambos os caminhos são aceitáveis, desde que adotados corretamente.


Aqueles investidores que preferem alocar seus recursos em empresas sustentáveis, e serem mais passivos na relação com as companhias investidas, precisam ter plena certeza de que as empresas selecionadas são, de fato, aderentes às práticas ESG sob o risco de comprarem “gato por lebre”. Se o objetivo primário era investir em empresas de qualidade, não o fazer acarretaria no comprometimento dos retornos.


Analogamente, os que escolheram o caminho de investir em empresas problemáticas e ativamente recuperarem-nas, precisam se certificar que o ativismo é exercido de fato, existindo não só uma agenda clara de objetivos, mas também uma estratégia viável para os atingir e uma política definida de atitudes a serem adotadas caso os pleitos não sejam bem-sucedidos.


A má adoção desta estratégia embute dois riscos: (i) caso não seja efetivo em seus pleitos, o investidor acabar exposto a um investimento pior e (ii) investidores menos sérios terem a faculdade de adquirem o ativo que bem entenderem e realizarem um engajamento esvaziado, podendo livremente ostentar a bandeira ESG sem de fato a seguirem (o chamado “greenwashing”).


O debate ESG é ainda superficial no Brasil. Questões complexas são ignoradas ou esvaziadas e é muito comum ver investidores discutindo se uma empresa é ou não aderente às práticas ESG apenas pelo setor ao qual pertence ou por quantas toneladas de carbono emite. Hipoteticamente, chegaríamos ao ponto de ver trabalhadores despencando de andaimes de uma construtora carbono neutro que deixou de investir em segurança no trabalho em prol da agenda do clima.


Quem está de fato capacitado e atualizado para lidar com tais assuntos? A interpretação através de selos auto-declaratórios é garantia de alguma coisa ou tais selos têm sido instrumentalizados no greenwashing?


Precisamos nos atentar que ESG não é global, é regional. Os desafios das empresas brasileiras não são necessariamente os mesmos de seus congêneres internacionais, e, portanto, as soluções também não serão.


A questão é que não existe escolha a ser feita, ela já foi feita. O ESG é uma realidade, ainda que incipiente por aqui, e só tende a ganhar corpo. E rápido. Cabe então aos investidores institucionais a decisão de como integrar ESG a seus processos: o caminho da profundidade e densidade não é fácil, porém sustentável. O caminho do atalho é de simples adoção, mas certamente induz a riscos materiais de grandes montas, financeiros e reputacionais.


Os institucionais possuem um papel relevante. Entender o contexto, assumir o atraso, rejeitar a superficialidade, qualificar o debate e cobrar vigorosamente das empresas investidas e gestores terceirizados uma agenda ESG de compromissos ambiciosos (e não discursos) é papel fundamental no exercício de sua responsabilidade.

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