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  • Fabio Alperowitch

IPCC: 3.949 PÁGINAS EM BRANCO?

(artigo publicado na Ag.Estado / Broadcast em 24/08/2021)

O IPCC (Painel Intergovernamental sobre as Mudanças Climáticas) é uma organização científica criada em 1988 a partir da ONU com o objetivo de divulgar o conhecimento mais avançado sobre as mudanças climáticas, debatendo suas causas e riscos e sugerindo ações concretas para combater os problemas.

Desde sua fundação, o IPCC havia produzido cinco grandes publicações e no dia 9 de agosto divulgou sua sexta, um extenso relatório de quase 4 mil páginas com um conteúdo bastante contundente: o trabalho aponta haver uma alta probabilidade de o planeta atingir 1,5oC de aquecimento por volta de 2.030 e, embora ainda haja tempo para limitar o aquecimento da temperatura a este patamar, seria necessária uma transformação estrutural e imediata da maneira em que o mundo funciona atualmente.


O relatório aponta também os efeitos que cada fração de grau de aquecimento imporá ao planeta. Por exemplo, entre 3 e 5 graus de aquecimento, ocorreria uma perda quase completa da camada de gelo da Groenlândia (que contém gelo suficiente para elevar o nível do mar em mais de sete metros) e a perda total da camada de gelo da Antártica Ocidental (com gelo equivalente para adicionar mais três metros em relação ao nível do mar). Ou seja, em se concretizando este cenário, todo o litoral do planeta seria redefinido, afundando cidades e desalojando centenas de milhões de pessoas – isso sem contar o incalculável impacto financeiro.


A leitura do relatório ou de suas conclusões, que deveria ter causado reações de todo tipo no mercado financeiro – perplexidade, preocupação, agonia, inquietação ou atormentamento - foi praticamente ignorada, como se os agentes econômicos não fossem parte nem do problema nem de sua solução.


Dias depois da publicação do relatório do IPCC, foi a vez da Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) fazer seu alerta. Em sua mais abrangente publicação sobre o tema, pela primeira vez a instituição apontou quantas crianças no mundo vivem em áreas com riscos ambientais e climáticos. De acordo com o estudo, 820 milhões de crianças já estão altamente expostas, número este que deve piorar à medida que a temperatura média do planeta sobe. Não houve, tampouco, manifestações relevantes dos agentes econômicos acerca do mesmo.


A falta de sensibilidade e de sentimento de urgência para com o tema é incongruente com o crescimento da popularidade do ESG. Se existe, de fato, a incorporação da temática pelos investidores e empresas do mercado de capitais, por que ainda estamos tão distantes de uma transformação que leve a resultados concretos nesta frente?


Uma hipótese a ser considerada é um tanto paradoxal. A percepção de que o fato de existir mais preocupação acerca do tema, acaba por postergar a implementação de regulação. Ou seja, é possível que, fosse o ESG um tema menos debatido, haveria um maior sentimento de urgência no sentido de regular emissões e punir poluidores.


Trazendo o assunto para a realidade nacional, pesquisa divulgada pelo Poder360 (ler aqui) aponta que 71% da população brasileira está muito preocupada com a mudança do clima. Ora, se existe uma preocupação coletiva desta dimensão, por que motivo não vemos um avanço concreto no assunto?


Uma possível explicação surge ao ler os dados estatísticos com mais detalhes, ao percebermos que os segmentos da população brasileira que menos se preocupam com o tema são os homens, as pessoas com mais de 60 anos, os que possuem ensino superior e os de alta renda - justamente o estrato da população que concentra o maior poder político e econômico no país e que deveriam ser os propulsores e instigadores de uma transição.


Se ambicionamos de fato vislumbrar avanços mais materiais nesta frente, é necessário urgentemente dar ouvidos à ciência. Os alertas, que tem ficado cada vez mais frequentes e contundentes, não podem mais ser ignorados. Trabalhos relevantes como os do IPCC precisam ser absorvidos e incorporados na realidade de como gerir companhias e investimentos.


A conscientização precisa, urgentemente, se transformar em compromissos sólidos no sentido de reduzir substancialmente as emissões (ressalta-se: reduzir, não compensar), revisar processos logísticos, enxergar e atuar em toda a cadeia de negócios e incentivar mudanças sensíveis nos hábitos de consumo.


A opção alternativa não é, em definitivo, uma escolha inteligente.

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