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  • Fabio Alperowitch

ESGer carbonocêntrico

(Artigo publicado na Fast Company)


Somos todos feitos de carbono. Aliás, o carbono é um dos principais elementos do corpo humano e representa cerca de 20% de nossa composição corporal. Se pararmos para pensar, todas as moléculas orgânicas possuem pelo menos um átomo de carbono em sua constituição. Por isso, ele é um dos elementos mais abundantes do universo, “perdendo” apenas do hidrogênio, hélio e oxigênio.


Tudo tem carbono. Nossa vida é feita de carbono. Há carbono na comida que você ingere – já ouviu falar dos carboidratos, não? – há carbono na roupa que você veste ou na tela que você está olhando neste momento. Se a vida é feita de carbono, nada mais natural do que se preocupar com ele, não é mesmo?


Este texto não pretende ir para o caminho da bioquímica e muito menos ser um ensaio sobre carbono. A questão central é debater qual o devido lugar do carbono no mundo empresarial contemporâneo. Explico:


Sem querer alongar na parte científica – conforme prometido – há décadas que a ciência alerta que a emissão excessiva de carbono leva a um acúmulo deste elemento na atmosfera, potencializando o efeito estufa e provocando as mudanças climáticas. Trata-se de uma questão gravíssima e urgentíssima: que isso fique claro desde já, uma vez que o texto vai por um outro caminho...


Embora não seja nada novo, a recente intensificação do debate ESG no Brasil tem trazido as questões socioambientais à mesa dos conselhos, CEOs, altos executivos e investidores – temática essa que até pouco tempo atrás estava circunscrita aos meios acadêmicos, imprensa especializada, interessados e afins, mas bem longe do mainstream.


É importante lembrar que, embora houvesse praticantes do framework ESG no Brasil há décadas, estes eram raros e muitas vezes confundidos com excêntricos (incluindo o escriba aqui). Contudo, no continente Europeu tal prática já é estabelecida há mais tempo e, portanto, encontra-se em outro estágio de maturidade.


Cometendo aqui o pecado da generalização, mas na Europa há muito menos desigualdade social do que a que vivemos aqui; assim como pela própria geografia – vários países, múltiplas línguas e culturas – a diversidade faz parte do cotidiano: é muito normal as escolas e empresas conviverem diariamente com diversas etnias, povos e culturas. Nada mais natural que a questão climática se tornasse a preocupação número um na região e, portanto, estivesse no topo da agenda ESG.


E se o ESG tivesse, por hipótese, nascido no Brasil? Será que a temática da desigualdade social não seria a mais gritante, já que habitamos um dos países mais desiguais do mundo? Ou será que o foco estaria na inequidade racial, já que nossa população é formada predominantemente por negros (56%) mas, evidentemente, há uma seríssima problemática de racismo estrutural?


Mas, importamos o ESG à face-value. Importamos os problemas dos países ricos e, mais uma vez, deixamos as nossas questões de lado, aprofundando o abismo.


É sintomático: ao perguntar a um investidor brasileiro o que é uma empresa ESG, a resposta tenderá para a cor verde. Teste e verás.


Analogamente, os investidores brasileiros que incorporaram a pauta ESG cobram de suas empresas investidas a questão climática, independentemente de esta ser uma questão crítica na área de atuação da empresa. É como se ESG se resumisse à questão climática, e esta, ao carbono – uma visão reducionista e míope que desconsidera todas as complexidades das agendas, inclusive da ambiental.


Há poucas semanas, participei de uma conversa com um importante banco digital, que havia acabado de realizar a sua matriz de materialidade. Aos que a desconhecem, tal matriz é um processo organizado de escuta aos múltiplos stakeholders, no qual os mesmos conseguem externar suas visões sobre os pontos críticos de cada companhia.


A matriz deste banco digital apontava que a “agenda climática” estava no topo das preocupações dos stakeholders, embora a companhia tivesse emissões de CO2 desprezíveis. Os entrevistados não estavam tão preocupados, por exemplo, com a segurança das informações, com o índice de satisfação dos clientes ou com a governança corporativa – itens estes vistos como secundários ou terciários.


Transformar a complexidade e abrangência da incorporação ESG unicamente à emissão de carbono (eventualmente incluindo-se também o empoderamento feminino como tema), não só é um erro, como um risco.


O risco reside no fato das empresas serem compelidas a seguir uma agenda não necessariamente relevante e descuidar do que seja essencial. Afinal, ouvir os stakeholders é princípio fundamental da prática ESG. E se eles estiverem errados?


Corremos o risco de uma construtora, por exemplo, descuidar da segurança no trabalho para poder focar na neutralização de carbono. Corremos o risco de uma marca de roupas deixar de auditar seus fornecedores e terceirizados para verificar práticas trabalhistas – trabalho infantil e análogo ao escravo são comuns no setor – em busca de ser carbono “net zero”.


A inversão de agendas é grave e pode agravar as questões ESG na medida em que investidores tenderão a ser mais tolerantes e permissivos com empresas que sejam responsáveis na agenda do carbono, ainda que sejam irresponsáveis em todo o resto.


A pauta ESG veio para ficar. As pessoas, cada vez mais adentrando nesta dinâmica, é maravilhoso. Mas, #ficaadica: na ânsia de querer tornar-se ESGer, que sejamos menos carbonocêntricos.


https://fastcompanybrasil.com/esger-carbonocentrico

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