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  • Fabio Alperowitch

ESG-Nutella versus ESG-raiz: onde você quer estar?

Artigo de Fabio Alperowitch publicado na InfoMoney


Em entrevista recente, ao ser questionado sobre o alto preço das roupas da sua marca, o rapper Emicida afirmou: “Eu não vou vender uma camiseta a R$ 9,90 para colocar uma mulher ganhando um salário de miséria”, escancarando os princípios “ESG-raiz”. Tirei a minha camiseta e olhei a etiqueta. Lá mostra o tamanho, o fato de ser 100% algodão e a procedência – no caso, feita no Brasil. No verso ainda aparecem algumas dicas para a lavagem, mas é só. Ao adquirir um produto, é natural que o consumidor se atente aos seus atributos, qualidade e preço. Mas, até então, era pouco provável que o cliente questionasse como e em que condições o artigo foi fabricado. Vale lembrar, porém, que uma simples camiseta oculta toda uma história: quanto CO² emitiu em toda a cadeia, a quantidade de água e químicos que o processo de fabricação despejou no planeta, se o fabricante respeita a diversidade, o meio ambiente, os direitos humanos ou se recolhe corretamente seus impostos. O consumidor está, pouco a pouco, ficando mais atento a essas questões. Muitas empresas têm feito um grande esforço em transmitir informações aos seus consumidores. A gigante de bens de consumo Unilever, por exemplo, anunciou que incluirá uma etiqueta em seus mais de 70 mil produtos indicando a quantidade de gases de efeito estufa emitidos em sua fabricação. Não vai demorar até que outras companhias sigam a Unilever, bem como outras informações passarão a ser demandadas. Mas é importante nos atermos à importante fala do Emicida. Para cada produto (ou setor) há questões críticas a serem endereçadas. Embora importante, no setor têxtil a emissão de CO² não é crítica, mas as condições da mão de obra, sim. Durante décadas, a lógica econômica vigente era buscar a contínua redução de custos com vistas à melhoria da competitividade: quanto menor o custo, menor poderia ser o preço de venda e assim mais competitivo o produto seria em relação aos seus concorrentes. À primeira vista, nenhum problema com este raciocínio. Contudo, para atingir a meta da redução de custos, muitas companhias não se incomodavam em transgredir princípios em algumas esferas, especialmente a socioambiental. No setor têxtil, por exemplo, não são raros os exemplos de empresas que se valem de mão de obra operando em situações de violação de direitos humanos, em trabalho análogo ao escravo, uso de mão de obra infantil ou mesmo supressão de direitos trabalhistas. Parece pouco provável que grandes marcas se valham deste expediente. No entanto, muitas vezes, terceirizações ou quarteirizações impedem que as empresas tenham a exata visibilidade da situação. Parece-me óbvio concluir que cabe ao fabricante a responsabilidade sobre a auditoria em todo o processo, mas infelizmente, muitas delas até podem achar esta opacidade bastante conveniente. A disseminação do ESG ampliou enormemente o olhar sobre questões socioambientais, mas também abriu uma enorme lacuna entre as empresas que “falam” e as que “fazem”: a isenção de responsabilidade tem se mostrado como um dos principais problemas dos praticantes do “ESG-Nutella”. A inação é muitas vezes justificada por uma dificuldade fantasiosa. Tomando como exemplo nosso caso anterior, boa parte das empresas de confecção reconhece a importância de fazer auditoria na cadeia de suprimentos para tentar identificar fornecedores com violação aos direitos humanos, mas esconde-se atrás da alegação de ser complexo e oneroso. Assim, essas companhias pouco fazem além de reportes e compromissos teóricos e vagos. Andemos mais um passo. Segundo o último censo (IBGE-2016), 55% da população brasileira é formada por pretos e pardos. Porém, quando olhamos a estratificação por raça nas empresas, notamos que, em nível executivo, apenas 5% são negros, segundo o Instituto Ethos. Mas quando olhamos no espectro oposto, observamos que, entre os desempregados, 64% são negros. Terrível! Onde está a proporcionalidade? Cabe observar que esta estatística poderia ficar ainda pior se ela incluísse também a quebra por gênero: se a situação do negro é ruim, a da mulher preta é ainda pior. A grande maioria das pessoas que conheço fica estarrecida ao ouvir estes dados. Mas apenas uma ínfima minoria faz algo para mudá-los. Algumas vezes uso meu Twitter para fazer pesquisas sociais. É evidente que tais estudos não têm nenhum valor científico ou estatístico, mas me dão insights interessantes. Há algumas semanas, questionei quem teria mais dificuldade de arrumar um emprego formal e coloquei como alternativas: transexuais; ex-detenta; refugiado; e não me interessa (veja os resultados aqui) Deliberadamente não incluí alternativas para mulheres, negros, gays ou deficientes físicos – que provavelmente seriam as respostas naturais se a pergunta fosse aberta e não em múltipla escolha. Mas o verdadeiro resultado da pesquisa foi outro: dezenas de mensagens “inbox” recebidas dizendo que a pesquisa havia sido um soco no estômago. Afinal, jamais sequer tinham parado para pensar nas dificuldades enfrentadas por este espectro da população. São os “invisíveis”.


https://www.infomoney.com.br/colunistas/convidados/esg-nutella-versus-esg-raiz-onde-voce-quer-estar/

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