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  • Fabio Alperowitch

ESG não é matemática! (e porque isso pode ser bom para o Brasil)

(Artigo publicado no Valor Econômico)


Sou amigo dos números. Passei toda minha adolescência disputando Olimpíadas de Matemática e descobri o óbvio: os números, se retorcidos e torturados, podem concluir qualquer coisa, inclusive a verdade.


O raciocínio cartesiano, predominante no mercado financeiro, induz a quantificar tudo. Não há dificuldade em considerar questões de altíssima complexidade, solucionadas com sofisticados algoritmos. Mas há dificuldade de se lidar com o abstrato e tratá-lo como tal.


Os amplamente utilizados ratings de crédito têm como objetivo avaliar a possibilidade de uma companhia (ou governo) saldar sua dívida. Os ratings corporativos das três maiores agências do mundo (Moody´s, S&P e Fitch) possuem uma altíssima correlação entre si (0,9), indicando uma enorme convergência de opiniões. Por quê? Pois, afinal de contas, estão realizando análise quantitativa de balanço. Números analisando números.


Entretanto, ao transportarmos a mesma leitura para o mundo ESG, nos deparamos com uma realidade completamente distinta. As três maiores agências de ratings ESG do planeta (MSCI, Sustainalytics, Reprisk) possuem uma correlação de 0,3 na atribuição de suas notas ESG. Em bom português, não há alinhamento algum entre elas. Daí podemos alçar uma questão: será mesmo o ESG mensurável?


Comecemos pelo básico. Qual a origem dos dados? Se vamos partir da hipótese de que uma análise quantitativa seja possível, é pré-condição óbvia haver uma disponibilidade de informações para realizar tal análise: premissa falsa. Os Relatórios de Sustentabilidade são voluntários e seus dados, seletivos. É natural uma empresa querer mostrar o que é bom e esconder o que é ruim, curiosamente tornando mais importante aquilo que não consta no relatório em detrimento daquilo que consta. Paradoxalmente, empresas transparentes que realmente expõe suas entranhas acabam sendo prejudicadas em relação àquelas que transluzem apenas o mundo do “faz-de-conta”.


É bem verdade que há um grande esforço de investidores e de organizações como o GRI e SASB para aumentarem a consistência do reporte e transparência de dados ESG. Será que quando esse dia chegar conseguiremos avaliar ESG quantitativamente?


As questões parecem ser um tanto mais complexas do que isso.


Diversidade, por exemplo, é um fator ESG relevante, uma vez que uma gestão diversa toma melhores decisões. Mas não parece simplório e reducionista demais olhar gênero e raça através de números, tomando conclusões apressadas de que conselhos são diversos por terem tais recortes, como se os recortes em questão apresentassem um pensamento monolítico e desconsiderasse as individualidades de seus membros? E se “aquelas três” celebradas conselheiras só estiverem lá por serem filhas do controlador? E se o mesmo tivesse tido filhos homens haveria diversidade? A tal diversidade é legítima e perene? Isso a estatística não mostra.


Outra métrica importantíssima ESG é o NPS (Net Promoter Score) ou Índice de Satisfação do Cliente. Investidores ESG entendem que uma companhia deve trabalhar orientada a servir bem o seu consumidor, entregando bons produtos e um excelente nível de serviço, fidelizando-o.


Uma das tradicionais formas para o varejo medir o NPS é o encantômetro, um dispositivo em que o cliente aperta uma “carinha feliz” se foi bem atendido e uma “carinha furiosa” se ficou insatisfeito. Pois bem, imagine que você entrou em uma loja no verão e estava um calor insuportável e a loja não possuía ar condicionado. Ou ao entrar na loja percebe que está mal cheirosa. Ou com uma fila quilométrica. Ou não encontra o item que procura. Ou o produto está com preços abusivos. Ou o vendedor te destratou. Enfim, há inúmeras razões para fugir da loja antes de passar pelo caixa.


Por outro lado, quando passa pelo caixa, provavelmente encontrou o que queria, o preço estava adequado e não foi mal tratado. Há varejistas que posicionam o encantômetro na porta, outras no caixa. Comparar os dois números sem levar essa questão em consideração soa insensato, não? No mundo dos scores, ratings e matemática, a falta de parametrização de dados não é levada em consideração. Este é o caso do NPS. Extrapole este exemplo para outros tantos.


Na ânsia desvairada de querer traduzir tudo em números, o mercado peca e perde a essência do que seja a boa prática ESG, que reside na cultura corporativa amparada à ética, boa governança e respeito aos múltiplos stakeholders.


Isso não significa que não tenhamos que medir e reportar. Muito pelo contrário. Métricas são essenciais, bem como o reporte profundo, denso e transparente. Sem métrica, não há avanço na prática. Mas a extrapolação do uso da métrica para além do que a métrica se propõe a fazer põe em risco a própria adoção da filosofia.


O Brasil está muito atrasado na agenda ESG e, paradoxalmente, isso pode ser bom.


Temos sido fustigados, em todas as esferas, por questões de governança corporativa. O investidor brasileiro, por exemplo, já aprendeu que uma empresa pertencer ao “Novo Mercado” não significa, necessariamente, um predicado de boa governança. Já amadurecemos ao entender que ética não pode ser resumida em um “checklist” e que tentar quantificar o inquantificável quase inexoravelmente resulta em um preço alto demais a se pagar.


No mundo, enxergar ESG através de ratings e scores é a visão predominante. É tão insólita que se esquece, inclusive, que governança, cultura corporativa e sustentabilidade é regional e não global.


Temos, Brasil, uma vantagem de ser dos últimos a incorporar ESG: a escolha de sermos originais ou copycat é só nossa.

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