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  • Fabio Alperowitch

ESG e sua falsa dicotomia

(Artigo originalmente publicado na Ag Estado / Broadcast)


A falácia é uma argumentação que tem o intuito de parecer correta, mas utilizada incorretamente por se tratar de uma ideia equivocada, falsa crença e que, em geral, omite informações em sua construção. Há vários tipos de falácia, entre os quais a falsa dicotomia que se trata de um falso dilema em que se descreve uma situação contendo dois pontos de vista alternativos – geralmente opostos – colocados como se fossem as únicas opções existentes, desconsiderando caminhos intermediários.


Nos polarizados tempos atuais as falsas dicotomias apresentam-se com grande frequência, gerando uma armadilha lógica na qual muitos insistem em se prender. No caso da pandemia, por exemplo, muito tem sido debatido sobre as opções entre “economia” versus “vidas” como se fossem escolhas antagônicas, desconsiderando que a vacinação endereça ambas as questões.


A atabalhoada chegada da incorporação ESG no Brasil trouxe consigo uma narrativa dicotômica obviamente falaciosa. Sim, atabalhoada, pois em mercado financeiro que pouco considerava questões socioambientais em seus processos de análise de investimento, quase que repentinamente coloca este tema como prioritário, desconsiderando as complexidades que envolvem assuntos relativos a direitos humanos, meio ambiente e ética.


Surgem então várias argumentações falaciosas, tais como “desenvolvimento versus preservação” ou “inclusão versus mérito”; mas talvez “a mãe de todas” seja a “sustentabilidade versus lucro”. É importante ressaltar que ao se classificar como “mãe das dicotomias” não se está dando uma importância maior a esta em relação às outras, mas sim que provavelmente ao desmascará-la, todas as demais igualmente caem por terra.


De onde vem a ideia de que sustentabilidade e resultado financeiro sejam adversos? É necessário desconstruir este mito e, talvez ao desconstrui-lo, seja possível propor algo no espectro oposto e sugerir que a adoção de uma agenda sustentável inclusive aumenta o lucro.


O célebre professor de Harvard, Robert Eccles, em conjunto com Ioannis Ioannou e George Serafeim, publicou um estudo intitulado “The Impact of Corporate Sustainability on Organizational Processes and Performance”, no qual seleciona 90 empresas consideradas “Altamente Sustentáveis” e compara com seus respectivos pares que sejam “Pouco Sustentáveis” e acompanha o desempenho operacional destas companhias por dezoito anos. O estudo conclui que as empresas sustentáveis performam operacionalmente melhor (métricas ROE, ROA, etc) e que esta diferença de performance é ainda mais pronunciada nas empresas que vendem produtos para indivíduos (B2C), sugerindo que marca e reputação são fundamentais. Eles também concluem no estudo que o mercado tende a subestimar a rentabilidade futura das empresas sustentáveis.


Interessante ressaltar que as observações para este estudo foram feitas a partir de 1993 e encerrando-se em 2010; período esse em que a temática ESG ainda era periférica, a geração Z ainda não tinha nenhuma influência no mercado de consumo e que empresas mal se responsabilizavam financeiramente por suas externalidades – como é o caso da precificação do carbono, atualmente. É possível inferir que nos próximos dezoito anos a diferença de performance operacional seja ainda mais aguda em favor das empresas sustentáveis.


Transportando para o contexto brasileiro, não é difícil encontrar exemplos de empresas que corroboram esta mesma conclusão. Companhias como Localiza, Renner, Fleury, MRV, WEG, Natura entre tantas outras são exemplos de empresas que todos os dias amanhecem pensando em como crescerem e serem mais lucrativas, mas sempre de forma sustentável, respeitando a ética e levando em consideração seus stakeholders nos processos decisórios.

Talvez o leitor se surpreenda com os exemplos acima ao ver empresas de locação de veículos ou de moda na lista das empresas sustentáveis. Esta é mais uma falácia que comumente aparece: sim, empresas destes setores podem ser sustentáveis; bem como produtores de carros elétricos ou de pás eólicas podem não ser.


Este racional estende-se também aos investimentos. Mais de 2 mil estudos acadêmicos foram realizados para analisar a performance de fundos que incorporam as questões ESG em relação aos seus pares tradicionais e fortes evidências foram encontradas em favor dos investimentos sustentáveis. Uma compilação destes estudos, publicada no Journal of Sustainable Finance & Investment, demonstra a consistência desta conclusão: em apenas 10% de todos os estudos realizados houve desempenho pior do investimento ESG; em 90% dos casos o resultado foi neutro ou positivo.


Os mitos e lendas fazem parte do imaginário popular. Mas não passam de folclore. Neste momento em que muito se debate sobre responsabilidades, é essencial desconstruir crendices e aceitar como possível aquilo que aparentava ser um paradoxo.

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