Buscar
  • Fabio Alperowitch

Celebrar a criação do ESG é apagar sua memória e comprometer seu futuro

artigo originalmente publicado na Ag Estado / Broadcast


David Irving e David Legates possuem muitas similitudes além do nome. Irving é o historiador britânico que nega o holocausto. Legates é o climatologista americano que nega a severidade das mudanças climáticas. Um tenta reescrever a história; o outro, a ciência.


É de Irving, por exemplo, a afirmação de que não existiam câmaras de gás em Auschwitz. É de Legates a declaração de que o sol, e não os humanos, sejam responsáveis pela mudança no clima. Tais manifestações são repugnantes, ofensivas à memória dos que estão envolvidos com estas questões e perigosas: o apagamento da história tende a conduzir à repetição da mesma, ao passo que a negação da ciência pode levar a consequências catastróficas.


A primeira vez que se tem registro formal do conceito de sustentabilidade data do início do século XVIII, mais precisamente em 1713. Na ocasião, a necessidade de madeira para construção de navios e produção industrial levou a um aumento expressivo do desmatamento de florestas, causando a preocupação sobre escassez. Diante disso, Hans Carl von Carlovitz escreveu o livro “Sylvicultura Oeconomica”, que tratava de produção sustentável e preocupação com o futuro.


Também no século XVIII há registro do Metodismo (um grupo originário do Cristianismo Protestante) evitando investimentos em empresas fabricantes de bebidas alcoólicas, produtores de tabaco e jogos de azar. No século XIX, os Quakers proibiam investimentos em companhias ligadas à escravidão ou a guerras. Em 1928, em Boston, foi lançado um fundo de investimentos aberto ao público que possuía ampla lista de exclusão de setores, o Pioneer Fund. Podemos, inclusive, resgatar reminiscências dos conceitos da sustentabilidade nas religiões monoteístas.


Milhares de pessoas estão direta ou indiretamente conectadas com o desenvolvimento da sustentabilidade ao longo dos últimos séculos, compreendendo diversos campos – incluindo o dos investimentos, inclusive no Brasil.


Alguns destes personagens foram mais vocais, outros mais silenciosos, mas não menos importantes. Alguns têm como origem a área ambiental, outros o campo social e há também os oriundos da ética e governança corporativa; todos eles de fundamental relevância para o progresso da temática, mesmo porque há interconexão estrutural em todos estes assuntos.


Atualmente temos nos deparado com muitas pessoas celebrando o “nascimento” ou “surgimento” do ESG. Ainda que de forma involuntária, dizer que o ESG é novo é uma ofensa à memória de todos aqueles que se dedicaram à temática nos últimos séculos ou décadas.


Não há nada de novo no ESG, que é fundamentado exatamente nos mesmos pilares que têm sido discutidos e praticados amplamente e há tanto tempo. O fato de muitos investidores, líderes empresariais ou veículos da mídia não o terem percebido previamente, não significa que o mesmo não existia. Outrossim, tratá-lo como novidade denota até certa arrogância, na medida em que se afirma que o conceito exista apenas a partir do momento em que se toma conhecimento dele.


Não há criador ou inventor do ESG; há adeptos (no plural). Não há pioneiros; há protagonistas. Faz-se necessário rejeitar rotulações desta natureza sob o risco do enfraquecimento da agenda ESG. Revisionismo histórico ou negacionismo significa descomprometer-se com a ética que, por sinal, é justamente o pilar que sustenta o ESG.


O contínuo esforço proferido por alguns de tratar ESG como novidade, debilita-o. Ao ser percebido como algo recente, pode ser visto como frágil. Por ser “da moda”, pode ser interpretado como passageiro e, desta forma, por que dar ao assunto a devida atenção?


Ao invés de tratar de sua eclosão, devíamos tratar de sua essência. Ao invés de celebrar suas manchetes, devemos cobrar seus compromissos. Ao invés de apagar a sua história, devemos gratidão a todos que nos trouxeram até aqui.


Pouco importa quem está maduro no tema ou quem começou há pouco. Relevante é entender se há comprometimento concreto (e não de conveniência), em respeito à história e a um futuro sustentável.


Só assim caminharemos para frente.

Posts recentes

Ver tudo

ESG e sua falsa dicotomia

A falácia é uma argumentação que tem o intuito de parecer correta, mas utilizada incorretamente por se tratar de uma ideia equivocada ...