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  • Fabio Alperowitch

Bitcoin: To green or not too green?

(Artigo publicado na Fast Company)


Elon Musk, tão polêmico quanto rico, causou novamente. Poucas semanas após ter adquirido US$ 1,5 bi em bitcoins com o caixa da Tesla promovendo uma enorme procura à moeda cripto, virou a mão alegando que bitcoins são inimigos do meio ambiente, causando acentuada desvalorização na moeda.


Este debate sobre a questão ambiental da bitcoin não é novo. Há uma corrente que alega que a mineração desta moeda cripto consome tanta energia quanto um país como a Suécia e, portanto, é um vilão ambiental. A corrente oposta diz que não há absolutamente nada a se preocupar em relação ao seu impacto ambiental. E é bem possível que ambas as correntes estejam tão certas quanto erradas.


Afinal, a bitcoin é ou não verde?


Perguntas simples não necessariamente têm soluções fáceis. Como quase tudo no mundo ESG, as questões são mais complexas do que aparentam ser e a binaridade deve ser desconsiderada.


A fim de discutir a questão, é importante relembrarmos a origem da bitcoin. Para produzir a moeda digital, é necessário que computadores altamente potentes processem informações para resolver uma espécie de enigma matemático altamente complexo. Quem resolver o problema primeiro, recebe tais moedas como recompensas. São esses os mineradores. A necessidade de processamento requer máquinas poderosas trabalhando ininterruptamente causando um consumo de energia enorme – equivalente a mais de 0,5% de toda energia consumida no planeta.


Esta mineração é feita em vários países – especialmente China – nos quais a fonte de energia não é preponderantemente renovável e, portanto, implicaria em elevadas emissões de gases de efeito estufa. Para piorar, quanto mais valorizada estiver a bitcoin, maior o incentivo das mineradoras em obter a recompensa, viabilizando a produção da mesma em áreas em que a energia é altamente poluente e onerosa.


Por outro lado, há alguns pontos a serem considerados. O primeiro é que a mineração não é sempre feita no mesmo lugar, ela é fluida. Por exemplo, as regiões de Sichuan e Yunnan, na China, são abastecidas por energia hidrelétrica, portanto renovável e com baixa emissão de gases de efeito estufa. Durante a estação de chuvas, há sobra de energia na região. Em períodos normais, estas regiões são responsáveis por 10% da mineração de bitcoins, mas na estação chuvosa este percentual sobe para 50%. O sistema automaticamente procura – até por questões econômicas – os locais com melhor uso de energia, e, portanto, não pode ser comparado com o sistema tradicional de mineração que estamos acostumados.


Há também que se considerar que boa parte dos países está em meio a um grande movimento de transição energética. Portanto, no tempo, veremos uma realidade um tanto diferente da que vemos hoje. Olhar para a foto e desconsiderar o filme pode induzir a erros.

Vale também lembrar que a bitcoin incorre em um esforço energético descomunal para ser gerada, mas isso ocorre uma vez só. Uma vez minerada, o custo energético de transação é mínimo. Tendo em vista que o princípio da moeda é que haja um número limitado de bitcoins em circulação, deve-se refletir se para analisar o impacto ambiental é necessário diluir este esforço energético no tempo.


Mas as interrogações não param por aí.


Muitos veem a bitcoin como uma febre passageira, quase que uma zombaria sem a menor fundamentação ou sustentação econômica. Para estes, não há a menor dúvida de que a bitcoin seja um inimigo ambiental. Afinal, um esforço energético desta magnitude para nenhuma contrapartida real, naturalmente não faz sentido.


Mas há os que enxerguem a bitcoin como uma alternativa ao sistema financeiro tradicional. Entre estes, há os que entendam que a moeda cripto coexistirá com o sistema predominantemente vigente; assim como há os que creem que a bitcoin e outras criptomoedas substituirão o “antiquado” mecanismo atual.


Ora, nestes casos, analisar os impactos ambientais da moeda bitcoin de forma absoluta, sem comparar com os impactos do sistema tradicional de forma relativa, é um grande erro conceitual. Se a bitcoin vai substituir parcial ou integralmente moedas circulantes, é necessário compararmos uma coisa com a outra e não vermos de forma isolada.


Há no mundo cerca de 80 mil agências bancárias, 3 milhões de ATMs instalados, muitas centenas de prédios gigantescos abrigando os bancos e suas operações onde trabalham alguns milhões de funcionários. Quanta energia todo este sistema consome? Quanto carbono emite? E, ao contrário da criptomoeda, que consome uma enorme quantidade de energia de partida, mas desprezível na circulação da moeda, o sistema financeiro tradicional é estruturalmente pesado neste âmbito.


A célebre dúvida existencial dita por Hamlet durante a peça homônima de autoria de Shakespeare que inspira o título deste artigo parece ser mais complexa de responder.


https://fastcompanybrasil.com/bitcoin-to-green-or-not-too-green/

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