Investimento responsável ganha adeptos

por valorinveste.com

Uma semana após a queda da barragem da Vale em Brumadinho (MG), em janeiro, um investidor do escritório de gestão de fortunas Wright Capital perguntou ao profissional que o atendia se havia na carteira dele ações da empresa. Abatido pela tragédia que deixou centenas de vítimas e destruiu partes da cidade e do meio-ambiente, a intenção era resgatar o dinheiro de todos os fundos que tivessem papéis da empresa. O executivo explicou que, por meio de vários portfólios, ele tinha Vale, mas que o seu saque, isoladamente, não teria o efeito de sensibilizar grandes gestoras de recursos.

A solução paliativa foi calcular o quanto ele potencialmente ganhou com as ações ao longo do tempo e colocar um valor equivalente em investimentos de impacto socioambiental, conta Fernanda Camargo, uma das sócias-fundadoras da Wright Capital. A casa já tem como prática direcionar pelo menos 1% do patrimônio dos seus clientes em reais para tal propósito por meio do multimercado Wright Impacto Social. Não se trata de fazer filantropia, explica.

"O investimento busca retorno financeiro e impacto social ou ambiental positivos e mensuráveis", diz Fernanda. É o tipo de abordagem que pode ser usada em ativos como renda variável, crédito, e em fundos de participações em empresas. Com mais de R$ 11 milhões em recursos comprometidos com fundos dedicados ao tema, os investimentos estão distribuídos em projetos de energia limpa, habitação, educação, florestas, reciclagem e educação financeira.

Dentre as gestoras que lidam com fundos líquidos, Fernanda afirma que ainda são poucas as que têm genuinamente preocupação com fatores ambientais, sociais e de governança (ASG). "Muitas no Brasil focaram no 'G' da governança e agora quase todas estão começando a olhar para o 'A' e o 'S', que andavam meio largados", diz. "O movimento dos fundos de pensão de começar a exigir [esse tipo avaliação] vem dando força para a adoção dos critérios no mercado. E do ponto de vista do investimento de longo prazo faz todo sentido porque reduz o risco das carteiras."

 

No ano passado, a resolução nº 4.661, do Conselho Monetário Nacional (CMN), passou a prever que entidades fechadas de previdência complementar (EPFC) considerem na análise de riscos, sempre que possível, aspectos relacionados à sustentabilidade econômica, ambiental, social e de governança nas suas políticas de investimentos.

No mundo todo grandes fundos de pensão têm direcionado recursos para o perfil ASG. Segundo o Principles for Responsible Investing (PRI), o total de ativos geridos por seus signatários atingiu US$ 86 trilhões em 2019, o dobro de cinco anos atrás. O grupo foi criado em 2005 pelo então secretário das Organização das Nações Unidas (ONU) Kofi Annan para reunir grandes investidores institucionais para desenvolver princípios de investimentos responsáveis.

Algumas gestoras de recursos tradicionais do mercado brasileiro já vinham se valendo de filtros para investir em empresas com foco ASG. Há quem ainda coloque numa espécie de lista proibida aquelas ações que não compram de jeito nenhum.

É o caso da Fama Investimentos que antes de escolher quais papéis colocar na carteira faz um pente-fino que, entre outros critérios, dá notas em relação a fatores sócio-ambientais e de governança, diz Fabio Alperowitch, sócio-gestor da casa. "Nosso fundo não é um fundo ESG [a sigla para Environmental, Social and Governance], busca retorno financeiro e continua usando critério técnico para comprar empresas de alta qualidade."

Ele argumenta que não basta uma companhia ter margens espetaculares, acima da apresentada pelos seus competidores, com o mercado pagando caro por isso. "Quando você vai ver o porquê, descobre que a empresa não paga direito o fornecedor, tem salários mais baixos... essa tese de investimento é sustentável? Não é. Em algum momento o fornecedor vai preferir o concorrente, os colaboradores arrumam outro emprego e os consumidores vão boicotar os produtos", afirma. "Aquelas margens mais altas, que eram bem vistas, não são na verdade uma vantagem competitiva, vêm de uma imperfeição de curto prazo."

Entre as ações que compõem as escolhas da Fama sob a lente ASG estão, por exemplo, a empresa de shopping center Multiplan, que vem transformando sua matriz energética em energia solar; a Klabin, que viu uma oportunidade em embalagens de papel, em meio à onda de substituição dos sacos plásticos; ou a M.Dias Branco, que busca comprar ovos e leite de produtores que não maltratem aves ou sobrecarreguem as vacas.

"Tem um lado de que provavelmente a companhia está pagando mais caro por isso, mas ela entendeu que amanhã os 'millenials' vão querer essas questões incorporadas", diz Alperowitch. "As companhias que têm essa mentalidade não colhem [resultados] imediatamente, mas é o tipo de empresa que toma decisão para o longo prazo." O gestor é contra, porém, o empurrão regulatório porque corre-se o risco de as empresas apenas preencherem requisitos, sem de fato estarem engajadas, como aconteceu com o Novo Mercado.

A Constellation formalizou no início do ano uma metodologia ASG e o caminho foi não excluir nenhuma indústria ou companhia numa lista negativa, a fim de contemplar aquelas que estejam melhorando suas práticas, diz o sócio-responsável pela área comercial, Cândido Gomes. Pode ser uma forma de destravar valor para a empresa e isso se reflete para o acionista", diz. O que acontece para aquelas companhias com notas baixas é que o tamanho da posição costuma ser menor.

Paralelamente à metodologia ASG, a gestora aderiu em abril ao PRI e os analistas agora buscam a certificação Fundamentals of Sustainability Accounting (FSA), que ajuda a fazer o link entre ações de sustentabilidade e o impacto financeiro dessas informações. A gestora tem notas ASG para cerca de 100 empresas do seu universo de cobertura e analisa, por exemplo, fatores como emissão de carbono, a segurança e saúde dos colaboradores e o alinhamento e respeito ao direito dos acionistas.

"A avaliação ASG ajuda a evitar a armadilha de companhias mais duvidosas que parecem ter mais 'upside', e isso é especialmente importante num mercado de alta", diz Gomes. "A gente tem percebido que companhias com as melhores práticas ASG têm as melhores prática em geral e vão bem no longo prazo." WEG, Lojas Renner, Localiza e B3 estão entre os exemplos que passaram no filtro da casa.

Desde que foi criada, em 2005, a Jardim Botânico Investimentos dá grande peso a questões associadas à boa governança e nos últimos anos passou a incluir os fatores socioambientais, diz o sócio-gestor Eduardo Rezende. A gestora, signatária do PRI há quatro anos, busca informações nos formulários de referência e de sustentabilidade, e montou um pequeno questionário com perguntas relativas a programas de incentivos, uso de água e emissão de gás carbônico para construir um ranking interno.

"As partes ambiental e social não são filtros eliminatórios como a governança, mas o peso na carteira pode ser influenciado por esses dois itens", afirma Rezende. O gestor explica que, num mercado do ainda pequeno e concentrado como o brasileiro, se eliminasse setores mais propícios a ter problemas ambientais como o de óleo e gás ou de mineração, o seu fundo de ações se resumiria a uma carteira com empresas de serviços.

Quando houve o desastre da Vale, a gestora tinha uma pequena participação na empresa e até aumentou a parcela depois por avaliar que a empresa já vinha adotando políticas de correção para resolver os problemas das barragens.

As informações contidas neste material são de caráter exclusivamente informativo. É fundamental a leitura do regulamento dos fundos antes de qualquer decisão de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de rentabilidade futura. As rentabilidades divulgadas não são líquidas de impostos. Para avaliação de performance do fundo de investimento, é recomendável uma análise de período de, no mínimo, 12 (doze) meses. Os Fundos de Investimento não contam com garantia da instituição administradora, da gestora ou do Fundo Garantidor de Créditos - FGC.

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