Valor Econômico: Título ESG avança com pressão global e metas de gestores (09/12/2021)

Valor Econômico: Título ESG avança com pressão global e metas de gestores (09/12/2021)

Não há consenso entre os gestores se o último Acordo do Clima, durante a COP26, em Glasgow, irá acelerar a agenda dos fundos socioambientais e de governança (ESG, na sigla em inglês) no Brasil. No entanto, eles estão interessados no tema e estabelecem metas próprias para avaliar os ativos de empresas que irão compor o portfólio de investimentos.

As assets disputam esses papéis. Embora a oferta seja crescente, ainda há poucas emissões de títulos verdes ou temáticos por parte de empresas brasileiras na comparação com outros países. Enquanto no mundo, os fundos ESG ganharam força, especialmente na Europa, onde representam 41,6% no total da indústria, e nos EUA, com 33%, no Brasil não atingem 5%, segundo dados da Global Sustainable Investment Alliance (GSIA) e da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

Apesar da baixa representatividade, contudo, esse volume vem acelerando nos últimos três anos e, em 2021, bateu recorde de captação, saindo de R$ 9,7 bilhões, em 2019, para R$ 78,14 bilhões de janeiro a novembro deste ano, levando a um estoque de R$ 131,46 bilhões, conforme levantamento das emissões domésticas e internacionais feitas pela Sitawi Finanças do Bem.

A pressão internacional colabora para que empresas nacionais que negociam com outros países cumpram acordos dos quais muitas vezes não são nem signatárias. “As empresas não participam das negociações internacionais. Mas existe sim uma pressão de múltiplos stakeholders para que avancem. Fazem parte desta lista, investidores, imprensa, reguladores, credores, seus pares e sociedade civil, entre outros”, afirma Fabio Alperowitch, sócio da Fama Investimentos e dono do fundo ESG mais longevo do mercado, de 1993, com R$ 2,5 bilhões em patrimônio líquido (PL).

Alperowitch diz que empresas de tabaco, mineradoras, petróleo, que utilizam trabalho infantil ou análogo ao escravo não entram no seu portfólio e vê tendência para que esses fundos ESG entrem mais fortemente no país pelo interesse dos grandes bancos. “O que deve estimular seus clientes a investirem dessa forma. Os bancos estão cada vez mais colocando o assunto na agenda e, aos poucos, as pessoas vão se aculturando ao ESG”.

Já a Quasar tem como meta ter todos os ativos de seus fundos, que possuem R$ 3,5 bilhões, enquadrados em critérios ESG até 2023. Desde que adotou essa política, em 2020, 50% deles já passaram pelo escrutínio. Para isso, criou uma matriz de risco socioambiental para as empresas de capital fechado e um critério rigoroso de análise para as empresas abertas. “Há algumas que são menos preparadas e tentamos ajudá-las para que melhorem no ESG. Agora, desde que criamos a nova política, não entramos em nenhuma operação polêmica”, conta Bruno Bacchin, responsável por coordenar a estratégia ESG da Quasar, que esteve na COP26 em painéis específicos sobre o tema.

Para Bacchin, a COP deve sim acelerar não só os compromissos das empresas em relação ao clima, mas também levará os governos a regularem e criarem padrões para o assunto. A consequência é que surgirão mais empresas interessadas em entender as necessidades e práticas para emissão de green bonds. Mas ele alerta para o chamado greenwashing (em que se promete muito mais do que se entrega). “Temos que tomar cuidado com isso. Tem que checar na prática o que as empresas estão fazendo. Se não é só greenwashing e blá, blá, blá”, diz Bacchin.

Signatária do Net-Zero Asset Management Initiative (no Brasil, só a JGP e a Fama são), a JGP diz que falta ainda sofisticação nas emissões de títulos verdes no país e isso vai ter que ser alcançado. A casa é 100% ESG na filosofia de investimentos em todos os fundos. “Temos inclusive alguns fundos que são high ESG, cujo nível de rigor com os indicadores que são rotulados verdes é maior. Na estratégia de crédito, dentro dos fundos ESG, o fator climático tem nível elevado e analisamos a pegada de carbono”, observa José Pugas, sócio e responsável pelas estratégias de crédito sustentável da JGP.

Ao assinar o Net-Zero, a gestora se compromete a ser carbono neutro no portfólio até 2040. “Isso orienta a nossa estratégia de alocação. Hoje nós estamos fazendo o inventário do escopo 3 para saber quanto estamos próximos da meta. Temos que atingir 50% já em 2030”, afirma Pugas, fazendo referência às emissões dos fornecedores.

A gestora construiu frameworks analíticos e setoriais, com indicadores próprios. E a partir disso faz análise das empresas de acordo com seus pares de mercado. “Para decidir sobre a alocação do nosso capital, eu tenho que entender os impactos que elas causam e como estão suas gestões de risco socioambiental e climático.”

cadastre-se e receba nossos relatórios