Agência Estado: COP: POP ou FLOP? Ao olhar de um investidor Brasileiro

11 nov 2021

Agência Estado: COP: POP ou FLOP? Ao olhar de um investidor Brasileiro

Havia uma expectativa enorme em relação à COP26, por vários motivos. Primeiro, porque não houve o encontro no ano passado, em decorrência da pandemia. Muito aconteceu desde a última COP de 2019, em Madri, incluindo a própria pandemia, que fez aumentar o respeito em relação à ciência e o olhar para o social, tanto por parte de empresas quanto por parte dos governos.

Além disso, seria a primeira COP com Joe Biden sentado na cadeira de presidente dos Estados Unidos. Biden passou toda a campanha reforçando seu compromisso ambiental e, a partir disso, expectativas foram criadas, especialmente porque Trump havia se retirado do acordo de Paris e um dos primeiros atos do novo presidente foi se comprometer novamente com este tratado sobre o clima.

Do ponto de vista do mercado financeiro, especialmente no contexto brasileiro, ESG era um acrônimo quase desconhecido na última edição do encontro. Portanto, o evento não era pauta deste público. É possível que muitos talvez até desconhecessem a existência desta conferência e seus desdobramentos. Agora ESG é a palavra da moda – embora nem todos a tratem com o devido respeito – e, por isso, a COP potencialmente poderia tornar-se assunto neste meio.

Também havia uma enorme expectativa de que na COP fosse concluída a negociação do artigo 6 do Acordo de Paris, possibilitando um entendimento global sobre o mercado de carbono.

Com esse cenário, falava-se que seria a COP das COPs.

A abertura do evento contou com alguns discursos poderosos e contundentes, dos quais podemos ressaltar o da indígena brasileira Txai Surui e o da primeira-ministra de Barbados, Mia Mottley. A partir destes, as expectativas, que já eram grandes, ganharam um contorno especial.

Mas a realidade se impõe sobre sonhos e promessas rapidamente. A fragilidade de alguns compromissos, bem como a ausência de outros, mostra que ainda que houvesse uma vontade comum em combater as mudanças climáticas, interesses específicos geopolíticos ou corporativos seguem prevalecendo em muitos casos.

Em minha fala no painel “The Investor Agenda”, ressaltei a importância de não rotularmos a crise climática como um problema ambiental. É muito mais que isso. Trata-se de um problema social gravíssimo com reflexo em fome, pobreza, desigualdade, milhões de refugiados e tantos outros efeitos.

Na verdade, se pararmos para pensar, trata-se de um problema de ética: nós não temos o direito de roubar o futuro das próximas gerações.

No que tange ao mercado financeiro no âmbito nacional, a COP seria uma excelente oportunidade para que os participantes mostrassem comprometimento com a agenda, o que não aconteceu. Se estes compromissos não ocorrem durante a “COP das COPs”, a pergunta deixa de ser quando ocorrerão, mas se ocorrerão.

A iniciativa brasileira IPC (Investidores pelo Clima) lançou um documento no início da COP que não contém compromissos formais para os investidores, mas externa preocupações e solicita atenção do governo em alguns pontos. Até o momento, apenas dezoito assinaturas, incluindo gestoras de recursos, fundos de pensão, seguradoras e family offices. Dezoito!

Lançada no ano passado, a iniciativa Net Zero Asset Managers (NZAM), que estabelece o compromisso de descarbonização dos portfólios e conta com a adesão de 220 instituições globais, congregando US$ 57 trilhões de dólares, possui apenas DOIS brasileiros como signatários: a FAMA e a JGP.

Global Investor Statement to Governments on the Climate Crisis conta com o apoio de US$ 41 trilhões de ativos sob gestão. Salvo engano, a FAMA é a única gestora brasileira signatária.

Mas o problema não está circunscrito aos investidores. Na esmagadora maioria das apresentações do mundo corporativo, muito se fala sobre descarbonização, redução de emissões, net-zero, etc. Entretanto, há apenas 30 companhias brasileiras comprometidas com metas de redução baseadas em ciência (SBTi). Dentre elas, apenas QUATRO têm suas metas aprovadas. Vale lembrar que há cerca de 400 empresas listadas na Bolsa brasileira e milhares de grandes companhias nacionais, mas fica evidente que apenas uma pequena fração destas tem compromissos sólidos.

O governo está longe de fazer sua parte, mas empurrar unicamente a ele o compromisso com a solução, ao mesmo tempo em que não há comprometimento próprio, está longe de ser apenas hipocrisia.

O fato de termos 40% das florestas tropicais do mundo, a maior biodiversidade do planeta e uma matriz energética limpa tem dado a muitos brasileiros a sensação de que somos parte da solução e não do problema. Contudo, o Brasil é o quarto país que mais contribuiu para a mudança climática. Está na hora de assumir responsabilidades.

É possível entender a complexidade de um evento que tem a ambição de tratar de um assunto tão denso, com negociações e compromissos que envolvem questões estruturais. Acreditar que a COP seria POP o suficiente para resolver e endereçar temas tão complexos seria uma ingenuidade. Da mesma forma, é injusta a crítica dos que rotulam a conferência como FLOP, alegando que de nada serviu.

Mas vale a reflexão e a autocrítica: o governo, as empresas e os investidores brasileiros perderam uma grande oportunidade de mostrarem seriedade em relação à agenda. Neste sentido, flopamos.

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