Agência Estado: COP: POP ou FLOP? Ao olhar de um investidor Brasileiro

Havia uma expectativa enorme em relação à COP26, por vários motivos. Primeiro, porque não houve o encontro no ano passado, em decorrência da pandemia. Muito aconteceu desde a última COP de 2019, em Madri, incluindo a própria pandemia, que fez aumentar o respeito em relação à ciência e o olhar para o social, tanto por parte de empresas quanto por parte dos governos.

Além disso, seria a primeira COP com Joe Biden sentado na cadeira de presidente dos Estados Unidos. Biden passou toda a campanha reforçando seu compromisso ambiental e, a partir disso, expectativas foram criadas, especialmente porque Trump havia se retirado do acordo de Paris e um dos primeiros atos do novo presidente foi se comprometer novamente com este tratado sobre o clima.

Do ponto de vista do mercado financeiro, especialmente no contexto brasileiro, ESG era um acrônimo quase desconhecido na última edição do encontro. Portanto, o evento não era pauta deste público. É possível que muitos talvez até desconhecessem a existência desta conferência e seus desdobramentos. Agora ESG é a palavra da moda – embora nem todos a tratem com o devido respeito – e, por isso, a COP potencialmente poderia tornar-se assunto neste meio.

Também havia uma enorme expectativa de que na COP fosse concluída a negociação do artigo 6 do Acordo de Paris, possibilitando um entendimento global sobre o mercado de carbono.

Com esse cenário, falava-se que seria a COP das COPs.

A abertura do evento contou com alguns discursos poderosos e contundentes, dos quais podemos ressaltar o da indígena brasileira Txai Surui e o da primeira-ministra de Barbados, Mia Mottley. A partir destes, as expectativas, que já eram grandes, ganharam um contorno especial.

Mas a realidade se impõe sobre sonhos e promessas rapidamente. A fragilidade de alguns compromissos, bem como a ausência de outros, mostra que ainda que houvesse uma vontade comum em combater as mudanças climáticas, interesses específicos geopolíticos ou corporativos seguem prevalecendo em muitos casos.

Em minha fala no painel “The Investor Agenda”, ressaltei a importância de não rotularmos a crise climática como um problema ambiental. É muito mais que isso. Trata-se de um problema social gravíssimo com reflexo em fome, pobreza, desigualdade, milhões de refugiados e tantos outros efeitos.

Na verdade, se pararmos para pensar, trata-se de um problema de ética: nós não temos o direito de roubar o futuro das próximas gerações.

No que tange ao mercado financeiro no âmbito nacional, a COP seria uma excelente oportunidade para que os participantes mostrassem comprometimento com a agenda, o que não aconteceu. Se estes compromissos não ocorrem durante a “COP das COPs”, a pergunta deixa de ser quando ocorrerão, mas se ocorrerão.

A iniciativa brasileira IPC (Investidores pelo Clima) lançou um documento no início da COP que não contém compromissos formais para os investidores, mas externa preocupações e solicita atenção do governo em alguns pontos. Até o momento, apenas dezoito assinaturas, incluindo gestoras de recursos, fundos de pensão, seguradoras e family offices. Dezoito!

Lançada no ano passado, a iniciativa Net Zero Asset Managers (NZAM), que estabelece o compromisso de descarbonização dos portfólios e conta com a adesão de 220 instituições globais, congregando US$ 57 trilhões de dólares, possui apenas DOIS brasileiros como signatários: a FAMA e a JGP.

Global Investor Statement to Governments on the Climate Crisis conta com o apoio de US$ 41 trilhões de ativos sob gestão. Salvo engano, a FAMA é a única gestora brasileira signatária.

Mas o problema não está circunscrito aos investidores. Na esmagadora maioria das apresentações do mundo corporativo, muito se fala sobre descarbonização, redução de emissões, net-zero, etc. Entretanto, há apenas 30 companhias brasileiras comprometidas com metas de redução baseadas em ciência (SBTi). Dentre elas, apenas QUATRO têm suas metas aprovadas. Vale lembrar que há cerca de 400 empresas listadas na Bolsa brasileira e milhares de grandes companhias nacionais, mas fica evidente que apenas uma pequena fração destas tem compromissos sólidos.

O governo está longe de fazer sua parte, mas empurrar unicamente a ele o compromisso com a solução, ao mesmo tempo em que não há comprometimento próprio, está longe de ser apenas hipocrisia.

O fato de termos 40% das florestas tropicais do mundo, a maior biodiversidade do planeta e uma matriz energética limpa tem dado a muitos brasileiros a sensação de que somos parte da solução e não do problema. Contudo, o Brasil é o quarto país que mais contribuiu para a mudança climática. Está na hora de assumir responsabilidades.

É possível entender a complexidade de um evento que tem a ambição de tratar de um assunto tão denso, com negociações e compromissos que envolvem questões estruturais. Acreditar que a COP seria POP o suficiente para resolver e endereçar temas tão complexos seria uma ingenuidade. Da mesma forma, é injusta a crítica dos que rotulam a conferência como FLOP, alegando que de nada serviu.

Mas vale a reflexão e a autocrítica: o governo, as empresas e os investidores brasileiros perderam uma grande oportunidade de mostrarem seriedade em relação à agenda. Neste sentido, flopamos.

Invest News: Desmitos do ESG: por que não devemos ouvir os ‘profetas do atraso’

Há cerca de dois anos, o tema ESG (Environmental, Social and Governance) chegou à mídia. E conforme a onda expandiu e ganhou ressonância em praticamente todas as empresas e em diferentes camadas da sociedade, alguns “profetas do atraso” passaram a prometer derrubar os mitos que envolvem o ESG.

Pois bem. O debate é sempre bastante saudável, principalmente quando as lentes da discussão estão calibradas para o atual contexto do mundo e não para um passado que já não mais condiz com a realidade.

O que pensam os ‘profetas do atraso’

Os “profetas do atraso”, para rebater o que vem pela frente, o futuro, fazem referência a Milton Friedman (Nobel de Economia em 1976 e professor na famosa escola de Chicago, falecido em 2006), que em 1970 publicou no “New York Times” um artigo de enorme repercussão em que dizia que “a única responsabilidade social da empresa é maximizar os lucros (e retornos dos acionistas)”.

A partir disso, ele consolidou-se como o pai do “capitalismo de shareholders“, um sistema no qual o único objetivo de uma empresa é contemplar seus acionistas. Considerando a época em que foi escrito o artigo, é compreensível na medida em que o acionista acreditou na empresa, financiou a companhia e correu todos os riscos para que a mesma prosperasse.

Contudo, no contexto atual, é uma doutrina já superada. O que Friedman não considerou é que a riqueza do acionista nunca poderia ser feita às custas da dor e miséria dos demais stakeholders. Isso não deve ser aceitável por duas razões: não é nem ético, nem sustentável ao longo prazo.

Infelizmente, Friedman influenciou a cultura corporativa de muitas empresas nas últimas cinco décadas, causando dor e sofrimento a muitos stakeholders. Felizmente, no entanto, muitas e relevantes empresas, tanto no cenário internacional quanto doméstico, despertaram para o problema e têm feito uma rápida e poderosa transição.

Um sistema econômico que recompensa a maximização da riqueza sobre o bem-estar alheio e prioriza o individualismo sobre a interdependência não pode manter-se funcional no longo prazo.

É possível unir lucro e responsabilidade?

É perfeitamente possível unir lucro e responsabilidade. E arriscamo-nos dizer que boa parte das empresas mais admiradas e bem-sucedidas da atualidade já pensam desta maneira – inclusive, há pesquisas globais e com recorte nacional que mostram que as empresas só têm a ganhar adotando esse pensamento na prática.

Cada vez mais empresas têm percebido que, para seus negócios prosperarem, precisam ter um propósito, uma razão de ser, que deve responder à simples questão: “qual dor da sociedade nosso negócio se propõe a curar?”. Se não há propósito, o negócio perde sua necessidade e passa a ser efêmero, sendo rapidamente substituído por concorrentes que, mais do que conquistar o bolso do cliente, conseguirão conquistar o coração deste cliente, fidelizando-o.

Analogamente, relações precarizadas com os fornecedores levam a descontinuidades na cadeia, sendo fundamental a preservação de uma equação econômica satisfatória para ambos.

Da mesma forma, os colaboradores que não forem contemplados em ambientes mais acolhedores, inclusivos e que não sejam justamente remunerados, tendem a deixar a companhia na primeira oportunidade ou sequer se sentirão atraídos para nela trabalharem. Atrair e reter talentos é fundamental para a prosperidade financeira de um negócio, uma vez que as pessoas jurídicas são, em essência, um conjunto organizado de pessoas físicas.

Empresas não são igrejas ou ONGs

Os “profetas do atraso” atacam o conceito ESG sem, de fato, compreendê-lo. Exatamente o mesmo equívoco cometido pelo aclamado professor Aswath Damodaran, que recentemente trouxe severas críticas ao ESG, inclusive comparando empresas que seguem tais princípios a igrejas (!!!). A falta total desta compreensão sobre os conceitos básicos do ESG deve servir de alerta: este debate precisa ser amplificado e qualificado sob o risco de a incompreensão do mesmo esvaziá-lo.

Empresas não são igrejas ou ONGs. “Fazer o bem” não é, nem deve ser, o objetivo social das empresas. Responsabilidade é uma ferramenta, e não um fim em si mesmo.

O respeito na interação com os múltiplos stakeholders (clientes, fornecedores, colaboradores, meio-ambiente, governo, competidores, mídia, comunidades etc), no processo decisório, é fundamental para relações duradouras e de parceria. Empresas precisam se responsabilizar por suas externalidades. Trata-se de ética em seu senso mais fundamental.

ESG não é um produto, mas um processo. Assim, a busca de resultados econômicos positivos, preservando a ética e transparência, é fundamental. São valores inegociáveis do ESG.

ESG: 3 letrinhas indissociáveis

O acrônimo ESG leva os incautos a entenderem “as três letrinhas” como separadas, mas são indissociáveis. Não há responsabilidade social ou ambiental sem governança. Não há externalidade ambiental sem impacto social. Não há gestão que leve a resultados econômicos expressivos e duradouros sem processos consistentes e independentes. Não há processos consistentes e independentes que não considerem stakeholders.

O conceito de “capitalismo para stakeholders” – que contrasta com o “capitalismo para shareholders”, foi elaborado ainda nos anos 60, protagonizado por Ed Freeman e Klaus Schwab. Nos anos 70 tomou corpo no US Business Round Table (1972) e em 2019 teve redefinida a “responsabilidade social dos negócios”, para além do acionista e sim para todos os stakeholders.

Uma empresa inserida no “capitalismo para shareholders”, que olha exclusivamente para si própria, naturalmente não vê valor em seus respectivos stakeholders. No longo prazo, a tendência é prevalecer a lógica no sentido inverso: os stakeholders também não verão valor nesta empresa, esvaziando-a.

Melhor empresa para o mundo

Na época de Friedman, o objetivo das empresas era ser a “maior ou melhor” empresa “do” mundo – uma visão ultrapassada, em que se tirava proveito de pessoas e destruía o meio-ambiente a fim de atender o objetivo.

Tal visão tem sido substituída pela aspiração em ser a “melhor” empresa “para” o mundo que cuida e serve as pessoas protegendo os recursos naturais, dos quais todos dependemos para sobreviver. Inclusive, por meio disso, amplia-se o mercado consumidor e seu poder de compra, em direto benefício econômico da própria companhia.

Em seu mais recente livro: “Empresas que curam”Raj Sisodia – professor em Babson College e cofundador do Conscious Capitalism, lembra que “boa parte dos negócios está infligindo uma serie de sofrimentos como o psicológico às pessoas, o financeiro às empresas e o ambiental ao planeta. Não criamos negócios para de forma consciente ferir e agredir as pessoas e o planeta, mas se não assumirmos um papel de curar, estaremos automaticamente assumindo um papel de ferir e agredir”.

Convidamos os “profetas do atraso” a refletirem: qual a perspectiva econômica de uma empresa que opere nesta lógica? E os líderes do futuro a acreditarem, se engajarem e mudarem os rumos de seus negócios, para que realmente tenham uma Governança que cuide do Social e do Eco-Ambiental com ética e transparência para que seus negócios e seu legado sejam sustentáveis.

Por Fabio Alperowitch e Hugo Bethlem (chairman do ICCB (Instituto Capitalismo Consciente Brasil) e Chief Purpose Officer da BravoGRC)

InfoMoney: Crise Energética, ESG e Distorção Cognitiva

Em 1989, Dr. David Burns apresentou a teoria de distorções cognitivas após longa pesquisa na área em conjunto com o renomado Dr. Aaron Beck, ambos renomados psiquiatras norte-americanos. As distorções cognitivas são formas distorcidas que as pessoas têm de interpretar determinadas situações do dia a dia, ou seja, interpretações enviesadas do que acontece.

Há uma série de tipos de distorções cognitivas, sendo a “atribuição de culpa” uma das principais delas. Nesse caso, a tendência é procurar culpados externos e considerar as próprias falhas como responsabilidade dos outros.

É bem verdade que o mundo passa por um momento de stress energético: em alguns países europeus, por exemplo, o preço do gás natural chegou a triplicar ou até quadruplicar; o preço do barril de petróleo que era negociado na casa dos US$ 60 rapidamente atingiu US$ 75.

Na mesma velocidade em que o preço das commodities energéticas dispararam, foi a velocidade em que surgiram comentários e análises atribuindo ao ESG a culpa pelo problema. Para estes, a redução na oferta causada pela pressão por um mundo mais limpo tornou o mercado disfuncional, levando a uma alta dos preços e afetando negativamente uma população que o ESG deveria, em tese, proteger – concluindo, portanto, que o ESG ao invés de ser benéfico, é nocivo.

Tais análises, contudo, não levam em conta que, ao mesmo tempo em que a Europa se prepara para o inverno e, portanto, com natural aumento de demanda por energia, lidam neste ano com a redução de exportação de gás dos EUA em decorrência de problemas climáticos no Texas. Ou seja, em consequência da falta de cuidado com o planeta há menos oferta de energia, e não o contrário.

Não se trata de um evento isolado na Europa. Afinal, no Brasil, estamos à beira de um racionamento energético decorrente da crise hídrica. A região Amazônica desempenha um papel fundamental no regime de chuvas brasileiro e, portanto, o descaso em relação às políticas ambientais e aumento de desmatamento têm cobrado o seu preço neste sentido.

Voltando à questão europeia, para criticar o ESG vale qualquer subterfúgio, inclusive o de ocultar temas que o mercado sempre considerou: (i) a alta de preços é bastante benéfica para a Rússia no momento em que busca melhores negociações para a entrada em operação do gasoduto Nordstream 2, o que poderia estar levando-a a uma deliberada redução de oferta e (ii) não é novidade para ninguém que o setor de energia é oligopolizado globalmente e momentos de distorções do equilíbrio entre oferta e demanda são bastante convenientes para a ações coletivas.

Apesar das evidências, negacionistas da mudança climática aproveitam o momento para fortalecerem suas narrativas falaciosas e acabam ganhando o coro daqueles que não se preocupam com uma transição para um mundo mais sustentável, equilibrado, inclusivo e com visão de stakeholders. Assim, não perdem a oportunidade de extrapolar a questão energética e atacar as práticas ESG como um todo.

Toda boa análise precisa estar calcada em uma visão sistêmica, ou seja, ter a capacidade de enxergar o cenário completo, analisando todos os agentes que o compões bem como causas e efeitos.

Ou seja, calcular o custo financeiro do choque energético de forma isolada e tirar conclusões sobre ele é errado (ou desonesto). É preciso, no mínimo, incluir alguns componentes nesta equação. Como exemplo: apenas o custo de reconstrução das tempestades de verão que afetaram este ano a Alemanha, Holanda e Bélgica deve passar de 30 bilhões de euros apenas na Alemanha. Estamos aqui nos referindo a apenas um evento climático, em uma região e em apenas um ano.

Projeções da NRDC apontam para custos anuais na casa de US$ 2 trilhões se seguirmos na toada em que estamos. Da mesma forma, não podemos ignorar os efeitos da escalada de 30% no preço das commodities agrícolas nos últimos 12 meses, em grande parte resultado de fenômenos climáticos ao redor do globo, sendo essa uma pequena amostra do que o futuro pode nos reservar.

A guerra civil síria produziu cerca de 1 milhão de refugiados que migraram para a Europa, trazendo consequências de desequilíbrio econômico e social em vários aspectos. Segundo o Banco Mundial, a mudança climática produzirá mais de 200 milhões de refugiados. O custo de tudo isso está sendo contemplado por aqueles que apontam o dedo na transição energética?

Mas há um ponto em que tais analistas tem razão. Toda transição que for programada, paulatina, lenta e gradual traz menos trauma, consequência e desequilíbrio. Esta é uma opção que tínhamos há três ou quatro décadas atrás, quando a comunidade científica realizou uma série de alertas e nós irresponsavelmente ignoramos. Tivéssemos sido menos gananciosos e mais responsáveis, hoje já estaríamos em um outro cenário energético e este debate sequer existiria.

Precisamos reconhecer, de uma vez por todas, que algumas atividades empresariais têm severas externalidades negativas, pelas quais as companhias devem se responsabilizar. O conceito de polluter pays principle, criado pela OCDE há quase 50 anos (1972), recomenda que quem polui deve ser responsável pelos custos das medidas tomadas pelas autoridades para deixar o meio ambiente em estado aceitável. Objetivamente falando, quem sujou, limpa. Trata-se, portanto, de uma questão fundamental de governança, embora estejamos tratando-a apenas como ambiental. Pragmaticamente, estamos simplesmente roubando as gerações futuras.

Bernard Shaw, dramaturgo irlandês e cofundador da London School of Economics, certa vez disse que a aristocracia inglesa era tão preguiçosa e insolente que sequer esforçava-se para cometer crimes, pedindo para a criadagem fazê-los – daí a expressão que a “culpa é do mordomo”.

Seja por distorção cognitiva, seja pela má-fé dos analistas que se comportam como se fossem da aristocracia inglesa, o ESG está injustamente sentado no banco dos réus.

Por Fabio Alperowitch e Roberto Attuch Jr (fundador e CEO da OHMRESEARCH)

Capital Reset: O gestor militante: Como o ESG entra na carteira da Fama, de Fabio Alperowitch

Se você se interessa por ESG, certamente já ouviu falar de Fabio Alperowitch. 

Depois de quase três décadas de certa discrição, nos últimos anos o sócio-fundador da Fama, que tem R$ 2,8 bilhões sob gestão num fundo de ações, tornou-se um sonoro militante dos investimentos responsáveis e das causas ambientais e sociais.

Suas opiniões, quase sempre enfáticas, podem ser acompanhadas em seus posts diários nas redes sociais e nas diversas lives, cursos e podcasts de que vem participando desde que decidiu assumir o novo papel no mercado.

A postura pública pegou muita gente de surpresa, porque até então a Fama nunca havia sido vocal sobre sustentabilidade — embora sempre tenha feito barulho na agenda de governança corporativa. 

Alperowitch diz que a semente do ESG está presente na filosofia da Fama desde a fundação, em 1993 — quando o termo ainda não tinha esse nome — e nasceu de um pacto com seu sócio Maurício Levi, ambos então com 20 e poucos anos.

“Quando começamos, tínhamos US$ 10 mil sob gestão e rascunhamos um documento com os 10 mandamentos que queríamos seguir. Um deles era de que não investiríamos em nada que ferisse nossos princípios. Esse foi o embrião do que hoje é o ESG”, diz Alperowitch. 

Com uma abordagem na seleção de ativos para o longo prazo, a gestora acabou atraindo investidores estrangeiros. Até hoje, 80% dos recursos vêm de grandes investidores institucionais de fora do país, especialmente europeus — um perfil que ajudou a trazer maturidade em relação ao tema ESG. 

“De 2011 a 2018, fomos refinando o ESG dentro do nosso processo de investimento e evoluindo em muitas questões. A ambiental, por exemplo, passou a ser mais relevante com o tempo, mas era muito da porta para dentro”, diz o gestor. 

Assim como no processo de investimento como um todo, a abordagem ESG praticada pela casa é mais baseada em saliva e sola de sapato que planilha de Excel: foca mais na essência e no conhecimento das empresas do que nas métricas, como forma de buscar resiliência e diferencial competitivo dos negócios. 

O fundo, que costuma carregar entre 12 a 15 ações e tem pouco giro de carteira, tem entre suas maiores posições a locadora de veículos Localiza, a operadora de planos de saúde Notredame, a varejista de moda Renner, a papeleira Klabin e a incorporadora MRV.

Em entrevista ao Reset, Alperowitch contou como funciona o processo de investimento da Fama, o que o motivou a assumir o papel de evangelista do ESG e fez um balanço da sua versão gestor-ativista. 

A seguir, os principais trechos da conversa: 

Você costuma dizer que a Fama já faz ESG há muito tempo, desde antes de o termo ter esse nome. Mas o engajamento e a posição pública em relação a esses temas é mais recente. O que mudou? 

No fim de 2018, algumas coisas aconteceram. Primeiro, a Fama completou 25 anos. Não sou muito de datas, mas um quarto de século para uma gestora de ações no Brasil é um marco e isso provocou uma reflexão. 

Será que nosso papel é só gerir recursos, ou vai além? A gente não tem obrigação de trazer da porta para fora alguns debates que a gente tem da porta para dentro? Será que o mercado aqui, que ignora a questões socioambientais, não poderia ser provocado por nós de alguma maneira?

Além disso, na mesma época aconteceram duas coisas. Primeiro, a eleição e a posse do Bolsonaro. Trazendo para um lado mais pessoal meu, foi um processo muito pesado, que não tem muito a ver com a Fama. Motivou a indignação, a vontade de vocalizar mais essas questões. 

Segundo, em janeiro de 2019, teve o desastre de Brumadinho, que significa muito, porque a Vale é a empresa símbolo da bolsa no Brasil, reincidente numa questão social e ambiental, deixando consequências que vão perdurar por décadas. Alguma coisa precisava ser feita. Essas três coisas ao mesmo tempo influenciaram para que eu começasse a falar um pouco mais. 

Outro elemento mais recente é que, quando as questões ESG começam a virar mainstream no Brasil, começo a ver um risco de superficialidade, de reducionismo, de as práticas passarem a ser comerciais e não de essência. Acho que preciso elevar um pouco dessa barra, e isso não é por diferencial competitivo. É porque para as mudanças acontecerem precisamos do coletivo, mas se esse coletivo for superficial não vai adiantar nada.

Como funciona o processo de investimento de vocês? Como analisam as empresas e como o ESG entra nesse processo?

Quando a gente começou a Fama, com US$ 10 mil, nenhuma empresa abria a porta para dois moleques. E, no fim, isso foi uma coisa boa. Aprendemos a analisar indo no ponto de venda, ouvindo consumidor, falando com concorrente, com funcionário. E até hoje nosso processo de pesquisa é assim, de stakeholder — bastante qualitativo, longo, demorado e que envolve diversas etapas . 

Costumo dizer que a pior fonte para saber o que está acontecendo numa empresa é a própria empresa, o executivo. Não porque ele minta, mas porque ele tem uma visão parcial e tende a ter dificuldade de ver quando não está no caminho certo. 

O segundo ponto crucial no nosso processo é entender que nós mesmos somos enviesados, especialmente pelo fato de ficarmos muito tempo nas posições. Como vou manter a capacidade crítica num investimento em que eu fico tanto tempo? 

Por isso, a gente dividiu a Fama em duas. Eu sou o construtor das teses de investimento, tenho uma equipe que trabalha comigo para isso. E meu sócio, o Maurício, está totalmente apartado, não faz parte do dia a dia, não participa das reuniões. O objetivo dele é destruir teses de investimento, servir como contrapeso. Em alguns momentos ele consegue e a tese é descartada. Em outros, ele traz um monte de perguntas, o analista tem que correr atrás e, se as dúvidas forem sanadas, a empresa é aprovada. 

E como o ESG entra na análise das empresas? 

Em toda a análise, é parte integrante do processo. Vai muito dessa percepção de essência. No fim das contas, se eu tivesse que espremer para te dar uma resposta objetiva, o que a gente busca são duas coisas: ética e cultura corporativa. Porque ainda que as empresas estejam defasadas em questões ESG, se a cultura corporativa é adequada, as coisas andam muito rápido. 

Um exemplo: A gente investe na Arezzo, que tem uma cultura muito bacana, tanto do lado social quanto do ambiental. Talvez do lado ambiental, o despertar tenha sido tardio, mas a cultura, no sentido de como a empresa e as pessoas pensam, é muito boa, ainda que as práticas não estivessem lá. 

Em 2018, mais ou menos, o Alexandre Birmann [CEO da Arezzo] alçou esse assunto para um outro patamar, viu que tinha que criar valor em cima disso. Em dois, três anos a empresa tem feito coisas muito legais, tanto nos processos quanto nas aquisições que ele fez. Ele trouxe a Reserva, que talvez seja uma das marcas mais preocupadas com essas questões. A mesma coisa quando eles compraram a Troc, que é um brechó online. Na Raia Drogasil, a mesma coisa. Tinha pouco processo e pouca coisa prática, mas muita cultura.

Muitas gestoras optam por ter um processo sistematizado para avaliar as empresas sob o prisma ESG, com frequência baseadas em scores para avaliar os pontos que consideram mais materiais em cada setor. Por que vocês não optaram por essa abordagem? 

Primeiro, tenho que fazer uma ressalva. Por mais profundo que eu seja em ESG, minha vida é muito mais fácil do que a vida de um gestor de um grande fundo europeu, por exemplo. Eu invisto apenas em ações, em uma geografia, com portfólio concentrado e com turnover muito baixo. Basicamente eu preciso entender bem de 15, 16 empresas. A cada ano, troco duas, três empresas. É um processo muito mais artesanal, muito mais de essência e menos de métrica. 

Um fundo grande multiclasses troca de gestor e tem que garantir que as políticas que estão lá vão permanecer. No nosso caso, os fundadores são os mesmos, estão aqui há 30 anos, é muito diferente. Usando uma analogia: o alfaiate, a Zegna e a Zara vendem terno. O alfaiate consegue ir nos detalhes, mas não consegue entregar muito produto. A Zara não consegue fazer detalhe, mas entrega escala industrial. A Zegna consegue ver um pouco de detalhe e um pouco de escala. O nosso estilo é alfaiataria. 

Se nosso processo fosse baseado em pontuações, eu ia chegar para a Arezzo e falar: não tem inventário de carbono, não tem política formal disso, daquilo, e descartar. Não é o que a gente pensa. 

A Fama tem uma lista de exclusão formal de setores, aqueles que, por política, vocês não entram? 

Estatais, e aí não é setor, é categoria de empresa. É assim desde 1993. E a gente não investe em armas e fumo — um setor que não existe mais na bolsa brasileira, mas que, se não existisse, a gente não investiria. Isso é formal. 

E tem um outro dogma nosso que, de certa forma, elimina algumas empresas problemáticas. A gente não investe em empresas que dependem mais de fatores macroeconômicos do que de fatores micro, portanto as companhias de commodities puras acabam ficando de fora. Mas aí a gente exclui tanto uma Vale quanto uma Suzano, que não tem problema de ESG.

E tem exclusões do ponto de vista pragmático. Vamos supor que tenha uma empresa que é altamente poluente, mas a gente gostasse à primeira vista. O fato é que eu tenho convicção que, em algum momento nos próximos anos, o carbono vai ser precificado no Brasil, então essa empresa certamente não vale o que as pessoas acham vale. Nesse caso, pragmaticamente, o investimento não faz sentido. 

Principalmente quando se trata de descarbonização, muitas gestoras defendem a tese de continuar investindo nas empresas e se engajar para incentivar a mudança de práticas. Você é da tese de nem sequer investir. Por quê?

No Brasil, o engajamento nesses moldes é a mentira do século por várias razões. Primeiro, porque o ESG não pode ser visto da mesma forma em qualquer lugar do mundo. Nos Estados Unidos, por exemplo, a grande maioria das empresas têm capital pulverizado. O que significa que um gestor que tem uma ideia, um posicionamento relevante, se engaja e consegue aglutinar um monte de apoio pode mudar o rumo da companhia. 

Mas, por aqui, a maioria das empresas têm controle definido. Então, você pode espernear que, se o controlador não quiser, não vai fazer. O segundo ponto é que muitas assets se escondem atrás da questão do engajamento para terem o que querem na carteira. Se você investe numa Natura, ninguém vai te questionar. Mas, se você investe numa Vale, basta dizer que está engajado. Portanto, você pode investir em qualquer coisa. 

Se você vai se engajar, o engajamento precisa obedecer a alguns critérios. Você está se engajando em que frente? Com quem? Como você vai reportar isso? O que você fará se a empresa não mudar e em quanto tempo? Dizer que está se engajando e mandar um e-mail por ano não adianta, nem do ponto de vista de provocar um impacto positivo, nem do ponto de vista fiduciário, com o dinheiro do cliente.  

No Brasil, é raro que gestores de recursos se posicionem da forma que você faz. Qual o saldo que você vê desse posicionamento, para o Fabio pessoa física e para a Fama? Foi uma boa exposição? 

Não é uma estratégia que foi pensada com um objetivo comercial. A gente está numa situação de Brasil e de mundo que demanda alguns posicionamentos. O silêncio é um posicionamento também. Eu não sei se teria opção, de ficar quieto, independentemente se eu fosse gestor de recursos, empresário do setor de varejo ou qualquer outra coisa. 

Foi bom para a Fama? Agrada muito algumas pessoas e desagrada outras. Ouvi muitas críticas e certamente muitas portas se fecharam. O balanço disso é difícil. Mas gosto de pensar de uma forma multidimensional. Todas as semanas sou chamado em alguma empresa para ajudar no desenvolvimento da estratégia de sustentabilidade. Empresas listadas, de dentro e de fora do portfólio, e não listadas também. Eu vejo, de certa forma, a gente ajudando a transformar a economia real. Isso é importante. 

Intencionalmente ou não, esse posicionamento se traduziu em mais captação para o fundo? 

Em relação à captação, acho que muito sinceramente o ESG não pegou no Brasil. Veja o fundo de fundos ESG da XP, que é super emblemático. Olha a qualidade das pessoas que a XP tem lá dentro, a capacidade deles de levar a mensagem para muitas pessoas — e tudo isso num momento em que a mídia espontânea sobre ESG é muito forte. Com tudo isso, o FoF deles tem R$ 40 milhões de patrimônio. É muito pouco. Do ponto de vista do investidor brasileiro, ainda não caiu a ficha. No momento em que cair, acho que acaba respingando para a gente que é bastante ativo no setor. Mas não estamos nesse momento ainda. 

Agência Estado: Celebrar a criação do ESG é apagar sua memória e comprometer seu futuro

David Irving e David Legates possuem muitas similitudes além do nome. Irving é o historiador britânico que nega o holocausto. Legates é o climatologista americano que nega a severidade das mudanças climáticas. Um tenta reescrever a história; o outro, a ciência.

É de Irving, por exemplo, a afirmação de que não existiam câmaras de gás em Auschwitz. É de Legates a declaração de que o sol, e não os humanos, sejam responsáveis pela mudança no clima. Tais manifestações são repugnantes, ofensivas à memória dos que estão envolvidos com estas questões e perigosas: o apagamento da história tende a conduzir à repetição da mesma, ao passo que a negação da ciência pode levar a consequências catastróficas.

A primeira vez que se tem registro formal do conceito de sustentabilidade data do início do século XVIII, mais precisamente em 1713. Na ocasião, a necessidade de madeira para construção de navios e produção industrial levou a um aumento expressivo do desmatamento de florestas, causando a preocupação sobre escassez. Diante disso, Hans Carl von Carlovitz escreveu o livro “Sylvicultura Oeconomica”, que tratava de produção sustentável e preocupação com o futuro.

Também no século XVIII há registro do Metodismo (um grupo originário do Cristianismo Protestante) evitando investimentos em empresas fabricantes de bebidas alcoólicas, produtores de tabaco e jogos de azar. No século XIX, os Quakers proibiam investimentos em companhias ligadas à escravidão ou a guerras. Em 1928, em Boston, foi lançado um fundo de investimentos aberto ao público que possuía ampla lista de exclusão de setores, o Pioneer Fund. Podemos, inclusive, resgatar reminiscências dos conceitos da sustentabilidade nas religiões monoteístas.

Milhares de pessoas estão direta ou indiretamente conectadas com o desenvolvimento da sustentabilidade ao longo dos últimos séculos, compreendendo diversos campos – incluindo o dos investimentos, inclusive no Brasil.

Alguns destes personagens foram mais vocais, outros mais silenciosos, mas não menos importantes. Alguns têm como origem a área ambiental, outros o campo social e há também os oriundos da ética e governança corporativa; todos eles de fundamental relevância para o progresso da temática, mesmo porque há interconexão estrutural em todos estes assuntos.

Atualmente temos nos deparado com muitas pessoas celebrando o “nascimento” ou “surgimento” do ESG. Ainda que de forma involuntária, dizer que o ESG é novo é uma ofensa à memória de todos aqueles que se dedicaram à temática nos últimos séculos ou décadas.

Não há nada de novo no ESG, que é fundamentado exatamente nos mesmos pilares que têm sido discutidos e praticados amplamente e há tanto tempo. O fato de muitos investidores, líderes empresariais ou veículos da mídia não o terem percebido previamente, não significa que o mesmo não existia. Outrossim, tratá-lo como novidade denota até certa arrogância, na medida em que se afirma que o conceito exista apenas a partir do momento em que se toma conhecimento dele.

Não há criador ou inventor do ESG; há adeptos (no plural). Não há pioneiros; há protagonistas. Faz-se necessário rejeitar rotulações desta natureza sob o risco do enfraquecimento da agenda ESG. Revisionismo histórico ou negacionismo significa descomprometer-se com a ética que, por sinal, é justamente o pilar que sustenta o ESG.

O contínuo esforço proferido por alguns de tratar ESG como novidade, debilita-o. Ao ser percebido como algo recente, pode ser visto como frágil. Por ser “da moda”, pode ser interpretado como passageiro e, desta forma, por que dar ao assunto a devida atenção?

Ao invés de tratar de sua eclosão, devíamos tratar de sua essência. Ao invés de celebrar suas manchetes, devemos cobrar seus compromissos. Ao invés de apagar a sua história, devemos gratidão a todos que nos trouxeram até aqui.

Pouco importa quem está maduro no tema ou quem começou há pouco. Relevante é entender se há comprometimento concreto (e não de conveniência), em respeito à história e a um futuro sustentável.

Só assim caminharemos para frente.

Fast Company: Bitcoin: To green or not too green?

Elon Musk, tão polêmico quanto rico, causou novamente. Poucas semanas após ter adquirido US$ 1,5 bi em bitcoins com o caixa da Tesla promovendo uma enorme procura à moeda cripto, virou a mão alegando que bitcoins são inimigos do meio ambiente, causando acentuada desvalorização na moeda.

Este debate sobre a questão ambiental da bitcoin não é novo. Há uma corrente que alega que a mineração desta moeda cripto consome tanta energia quanto um país como a Suécia e, portanto, é um vilão ambiental. A corrente oposta diz que não há absolutamente nada a se preocupar em relação ao seu impacto ambiental. E é bem possível que ambas as correntes estejam tão certas quanto erradas.

Afinal, a bitcoin é ou não verde?

Perguntas simples não necessariamente têm soluções fáceis. Como quase tudo no mundo ESG, as questões são mais complexas do que aparentam ser e a binaridade deve ser desconsiderada.

A fim de discutir a questão, é importante relembrarmos a origem da bitcoin. Para produzir a moeda digital, é necessário que computadores altamente potentes processem informações para resolver uma espécie de enigma matemático altamente complexo. Quem resolver o problema primeiro, recebe tais moedas como recompensas. São esses os mineradores. A necessidade de processamento requer máquinas poderosas trabalhando ininterruptamente causando um consumo de energia enorme – equivalente a mais de 0,5% de toda energia consumida no planeta.

Esta mineração é feita em vários países – especialmente China – nos quais a fonte de energia não é preponderantemente renovável e, portanto, implicaria em elevadas emissões de gases de efeito estufa. Para piorar, quanto mais valorizada estiver a bitcoin, maior o incentivo das mineradoras em obter a recompensa, viabilizando a produção da mesma em áreas em que a energia é altamente poluente e onerosa.

Por outro lado, há alguns pontos a serem considerados. O primeiro é que a mineração não é sempre feita no mesmo lugar, ela é fluida. Por exemplo, as regiões de Sichuan e Yunnan, na China, são abastecidas por energia hidrelétrica, portanto renovável e com baixa emissão de gases de efeito estufa. Durante a estação de chuvas, há sobra de energia na região. Em períodos normais, estas regiões são responsáveis por 10% da mineração de bitcoins, mas na estação chuvosa este percentual sobe para 50%. O sistema automaticamente procura – até por questões econômicas – os locais com melhor uso de energia, e, portanto, não pode ser comparado com o sistema tradicional de mineração que estamos acostumados.

Há também que se considerar que boa parte dos países está em meio a um grande movimento de transição energética. Portanto, no tempo, veremos uma realidade um tanto diferente da que vemos hoje. Olhar para a foto e desconsiderar o filme pode induzir a erros.

Vale também lembrar que a bitcoin incorre em um esforço energético descomunal para ser gerada, mas isso ocorre uma vez só. Uma vez minerada, o custo energético de transação é mínimo. Tendo em vista que o princípio da moeda é que haja um número limitado de bitcoins em circulação, deve-se refletir se para analisar o impacto ambiental é necessário diluir este esforço energético no tempo.

Mas as interrogações não param por aí.

Muitos veem a bitcoin como uma febre passageira, quase que uma zombaria sem a menor fundamentação ou sustentação econômica. Para estes, não há a menor dúvida de que a bitcoin seja um inimigo ambiental. Afinal, um esforço energético desta magnitude para nenhuma contrapartida real, naturalmente não faz sentido.

Mas há os que enxerguem a bitcoin como uma alternativa ao sistema financeiro tradicional. Entre estes, há os que entendam que a moeda cripto coexistirá com o sistema predominantemente vigente; assim como há os que creem que a bitcoin e outras criptomoedas substituirão o “antiquado” mecanismo atual.

Ora, nestes casos, analisar os impactos ambientais da moeda bitcoin de forma absoluta, sem comparar com os impactos do sistema tradicional de forma relativa, é um grande erro conceitual. Se a bitcoin vai substituir parcial ou integralmente moedas circulantes, é necessário compararmos uma coisa com a outra e não vermos de forma isolada.

Há no mundo cerca de 80 mil agências bancárias, 3 milhões de ATMs instalados, muitas centenas de prédios gigantescos abrigando os bancos e suas operações onde trabalham alguns milhões de funcionários. Quanta energia todo este sistema consome? Quanto carbono emite? E, ao contrário da criptomoeda, que consome uma enorme quantidade de energia de partida, mas desprezível na circulação da moeda, o sistema financeiro tradicional é estruturalmente pesado neste âmbito.

A célebre dúvida existencial dita por Hamlet durante a peça homônima de autoria de Shakespeare que inspira o título deste artigo parece ser mais complexa de responder.

Investidor Institucional: O verdadeiro papel dos institucionais em ESG

O vocábulo verdadeiro não foi inserido no título deste artigo ao acaso. Se há um papel verdadeiro, podemos inferir que haja dúvidas ou má compreensão sobre qual seja ele, sendo então este debate o objetivo desta leitura.

Para contextualizar, cabe rememorar que a sustentabilidade não tem nada de novo. A novidade é como ela tem sido tratada pelas empresas. Antes confinada aos setores de conformidade, agora alçada à mesa dos CEOs. Antes preocupada com a obtenção de licenças ambientais ou prevenção de multas, agora compreendida como agenda de criação de valor e gestão de riscos, para dizer o mínimo.

Curiosamente, para muitos investidores institucionais a integração ESG está trilhando o mesmo rumo que a sustentabilidade erroneamente seguiu no mundo corporativo: o da conformidade e não o da agenda de criação de valor. Esta é uma visão antiga e superada.

No mundo, (i) muitos investidores institucionais adotaram a agenda ESG por entenderem que faz parte do seu papel criar impacto positivo na sociedade. Outros (ii) abraçaram a filosofia ESG para evitarem riscos e questões reputacionais. Há também um grupo (iii) que aderiu ESG por uma questão pragmática: os retornos são superiores, sendo então uma excelente alocação de capital. Mas, há também os (iv) que adotaram este caminho apenas por ser bem-visto, em uma disparatada atitude marqueteira. Cabe, desde já, a reflexão aos institucionais brasileiros para entender a qual grupo pertencem, sendo este artigo dirigido aos três primeiros tipos.

Independente da motivação que os tenha trazido para esta agenda, a incorporação da mesma é feita de forma distinta entre as instituições. Por exemplo, há os que investem apenas em ativos aderentes às práticas ESG. Outros entendem o seu papel no espectro oposto: o de investir em ativos deficientes nos assuntos ESG e tornarem-se ativistas para a transição de agenda.

Ambos os caminhos são aceitáveis, desde que adotados corretamente.

Aqueles investidores que preferem alocar seus recursos em empresas sustentáveis, e serem mais passivos na relação com as companhias investidas, precisam ter plena certeza de que as empresas selecionadas são, de fato, aderentes às práticas ESG sob o risco de comprarem “gato por lebre”. Se o objetivo primário era investir em empresas de qualidade, não o fazer acarretaria no comprometimento dos retornos.

Analogamente, os que escolheram o caminho de investir em empresas problemáticas e ativamente recuperarem-nas, precisam se certificar que o ativismo é exercido de fato, existindo não só uma agenda clara de objetivos, mas também uma estratégia viável para os atingir e uma política definida de atitudes a serem adotadas caso os pleitos não sejam bem-sucedidos.

A má adoção desta estratégia embute dois riscos: (i) caso não seja efetivo em seus pleitos, o investidor acabar exposto a um investimento pior e (ii) investidores menos sérios terem a faculdade de adquirem o ativo que bem entenderem e realizarem um engajamento esvaziado, podendo livremente ostentar a bandeira ESG sem de fato a seguirem (o chamado “greenwashing”).

O debate ESG é ainda superficial no Brasil. Questões complexas são ignoradas ou esvaziadas e é muito comum ver investidores discutindo se uma empresa é ou não aderente às práticas ESG apenas pelo setor ao qual pertence ou por quantas toneladas de carbono emite. Hipoteticamente, chegaríamos ao ponto de ver trabalhadores despencando de andaimes de uma construtora carbono neutro que deixou de investir em segurança no trabalho em prol da agenda do clima.

Quem está de fato capacitado e atualizado para lidar com tais assuntos? A interpretação através de selos auto-declaratórios é garantia de alguma coisa ou tais selos têm sido instrumentalizados no greenwashing”?

Precisamos nos atentar que ESG não é global, é regional. Os desafios das empresas brasileiras não são necessariamente os mesmos de seus congêneres internacionais, e, portanto, as soluções também não serão.

A questão é que não existe escolha a ser feita, ela já foi feita. O ESG é uma realidade, ainda que incipiente por aqui, e só tende a ganhar corpo. E rápido. Cabe então aos investidores institucionais a decisão de como integrar ESG a seus processos: o caminho da profundidade e densidade não é fácil, porém sustentável. O caminho do atalho é de simples adoção, mas certamente induz a riscos materiais de grandes montas, financeiros e reputacionais.

Os institucionais possuem um papel relevante. Entender o contexto, assumir o atraso, rejeitar a superficialidade, qualificar o debate e cobrar vigorosamente das empresas investidas e gestores terceirizados uma agenda ESG de compromissos ambiciosos (e não discursos) é papel fundamental no exercício de sua responsabilidade.

Fast Company: ESGer carbonocêntrico

Somos todos feitos de carbono. Aliás, o carbono é um dos principais elementos do corpo humano e representa cerca de 20% de nossa composição corporal. Se pararmos para pensar, todas as moléculas orgânicas possuem pelo menos um átomo de carbono em sua constituição. Por isso, ele é um dos elementos mais abundantes do universo, “perdendo” apenas do hidrogênio, hélio e oxigênio.

Tudo tem carbono. Nossa vida é feita de carbono. Há carbono na comida que você ingere – já ouviu falar dos carboidratos, não? – há carbono na roupa que você veste ou na tela que você está olhando neste momento. Se a vida é feita de carbono, nada mais natural do que se preocupar com ele, não é mesmo?

Este texto não pretende ir para o caminho da bioquímica e muito menos ser um ensaio sobre carbono. A questão central é debater qual o devido lugar do carbono no mundo empresarial contemporâneo. Explico:

Sem querer alongar na parte científica – conforme prometido – há décadas que a ciência alerta que a emissão excessiva de carbono leva a um acúmulo deste elemento na atmosfera, potencializando o efeito estufa e provocando as mudanças climáticas. Trata-se de uma questão gravíssima e urgentíssima: que isso fique claro desde já, uma vez que o texto vai por um outro caminho…

Embora não seja nada novo, a recente intensificação do debate ESG no Brasil tem trazido as questões socioambientais à mesa dos conselhos, CEOs, altos executivos e investidores – temática essa que até pouco tempo atrás estava circunscrita aos meios acadêmicos, imprensa especializada, interessados e afins, mas bem longe do mainstream.

É importante lembrar que, embora houvesse praticantes do framework ESG no Brasil há décadas, estes eram raros e muitas vezes confundidos com excêntricos (incluindo o escriba aqui). Contudo, no continente Europeu tal prática já é estabelecida há mais tempo e, portanto, encontra-se em outro estágio de maturidade.

Cometendo aqui o pecado da generalização, mas na Europa há muito menos desigualdade social do que a que vivemos aqui; assim como pela própria geografia – vários países, múltiplas línguas e culturas – a diversidade faz parte do cotidiano: é muito normal as escolas e empresas conviverem diariamente com diversas etnias, povos e culturas. Nada mais natural que a questão climática se tornasse a preocupação número um na região e, portanto, estivesse no topo da agenda ESG.

 E se o ESG tivesse, por hipótese, nascido no Brasil? Será que a temática da desigualdade social não seria a mais gritante, já que habitamos um dos países mais desiguais do mundo? Ou será que o foco estaria na inequidade racial, já que nossa população é formada predominantemente por negros (56%) mas, evidentemente, há uma seríssima problemática de racismo estrutural?

Mas, importamos o ESG à face-value. Importamos os problemas dos países ricos e, mais uma vez, deixamos as nossas questões de lado, aprofundando o abismo.

É sintomático: ao perguntar a um investidor brasileiro o que é uma empresa ESG, a resposta tenderá para a cor verde. Teste e verás.

Analogamente, os investidores brasileiros que incorporaram a pauta ESG cobram de suas empresas investidas a questão climática, independentemente de esta ser uma questão crítica na área de atuação da empresa. É como se ESG se resumisse à questão climática, e esta, ao carbono – uma visão reducionista e míope que desconsidera todas as complexidades das agendas, inclusive da ambiental.

Há poucas semanas, participei de uma conversa com um importante banco digital, que havia acabado de realizar a sua matriz de materialidade. Aos que a desconhecem, tal matriz é um processo organizado de escuta aos múltiplos stakeholders, no qual os mesmos conseguem externar suas visões sobre os pontos críticos de cada companhia.

A matriz deste banco digital apontava que a “agenda climática” estava no topo das preocupações dos stakeholders, embora a companhia tivesse emissões de CO2 desprezíveis. Os entrevistados não estavam tão preocupados, por exemplo, com a segurança das informações, com o índice de satisfação dos clientes ou com a governança corporativa – itens estes vistos como secundários ou terciários.

Transformar a complexidade e abrangência da incorporação ESG unicamente à emissão de carbono (eventualmente incluindo-se também o empoderamento feminino como tema), não só é um erro, como um risco.

O risco reside no fato das empresas serem compelidas a seguir uma agenda não necessariamente relevante e descuidar do que seja essencial. Afinal, ouvir os stakeholders é princípio fundamental da prática ESG. E se eles estiverem errados?

Corremos o risco de uma construtora, por exemplo, descuidar da segurança no trabalho para poder focar na neutralização de carbono. Corremos o risco de uma marca de roupas deixar de auditar seus fornecedores e terceirizados para verificar práticas trabalhistas – trabalho infantil e análogo ao escravo são comuns no setor – em busca de ser carbono “net zero”.

A inversão de agendas é grave e pode agravar as questões ESG na medida em que investidores tenderão a ser mais tolerantes e permissivos com empresas que sejam responsáveis na agenda do carbono, ainda que sejam irresponsáveis em todo o resto.

A pauta ESG veio para ficar. As pessoas, cada vez mais adentrando nesta dinâmica, é maravilhoso. Mas, #ficaadica: na ânsia de querer tornar-se ESGer, que sejamos menos carbonocêntricos.

Agência Estado: ESG e sua falsa dicotomia

A falácia é uma argumentação que tem o intuito de parecer correta, mas utilizada incorretamente por se tratar de uma ideia equivocada, falsa crença e que, em geral, omite informações em sua construção. Há vários tipos de falácia, entre os quais a falsa dicotomia que se trata de um falso dilema em que se descreve uma situação contendo dois pontos de vista alternativos – geralmente opostos – colocados como se fossem as únicas opções existentes, desconsiderando caminhos intermediários.
 
Nos polarizados tempos atuais as falsas dicotomias apresentam-se com grande frequência, gerando uma armadilha lógica na qual muitos insistem em se prender. No caso da pandemia, por exemplo, muito tem sido debatido sobre as opções entre “economia” versus “vidas” como se fossem escolhas antagônicas, desconsiderando que a vacinação endereça ambas as questões.
 
A atabalhoada chegada da incorporação ESG no Brasil trouxe consigo uma narrativa dicotômica obviamente falaciosa. Sim, atabalhoada, pois em mercado financeiro que pouco considerava questões socioambientais em seus processos de análise de investimento, quase que repentinamente coloca este tema como prioritário, desconsiderando as complexidades que envolvem assuntos relativos a direitos humanos, meio ambiente e ética.
 
Surgem então várias argumentações falaciosas, tais como “desenvolvimento versus preservação” ou “inclusão versus mérito”; mas talvez “a mãe de todas” seja a “sustentabilidade versus lucro”. É importante ressaltar que ao se classificar como “mãe das dicotomias” não se está dando uma importância maior a esta em relação às outras, mas sim que provavelmente ao desmascará-la, todas as demais igualmente caem por terra.
 
De onde vem a ideia de que sustentabilidade e resultado financeiro sejam adversos? É necessário desconstruir este mito e, talvez ao desconstrui-lo, seja possível propor algo no espectro oposto e sugerir que a adoção de uma agenda sustentável inclusive aumenta o lucro.
 
O célebre professor de Harvard, Robert Eccles, em conjunto com Ioannis Ioannou e George Serafeim, publicou um estudo intitulado “The Impact of Corporate Sustainability on Organizational Processes and Performance”, no qual seleciona 90 empresas consideradas “Altamente Sustentáveis” e compara com seus respectivos pares que sejam “Pouco Sustentáveis” e acompanha o desempenho operacional destas companhias por dezoito anos. O estudo conclui que as empresas sustentáveis performam operacionalmente melhor (métricas ROE, ROA, etc) e que esta diferença de performance é ainda mais pronunciada nas empresas que vendem produtos para indivíduos (B2C), sugerindo que marca e reputação são fundamentais. Eles também concluem no estudo que o mercado tende a subestimar a rentabilidade futura das empresas sustentáveis.
 
Interessante ressaltar que as observações para este estudo foram feitas a partir de 1993 e encerrando-se em 2010; período esse em que a temática ESG ainda era periférica, a geração Z ainda não tinha nenhuma influência no mercado de consumo e que empresas mal se responsabilizavam financeiramente por suas externalidades – como é o caso da precificação do carbono, atualmente. É possível inferir que nos próximos dezoito anos a diferença de performance operacional seja ainda mais aguda em favor das empresas sustentáveis.
 
Transportando para o contexto brasileiro, não é difícil encontrar exemplos de empresas que corroboram esta mesma conclusão. Companhias como Localiza, Renner, Fleury, MRV, WEG, Natura entre tantas outras são exemplos de empresas que todos os dias amanhecem pensando em como crescerem e serem mais lucrativas, mas sempre de forma sustentável, respeitando a ética e levando em consideração seus stakeholders nos processos decisórios.
 
Talvez o leitor se surpreenda com os exemplos acima ao ver empresas de locação de veículos ou de moda na lista das empresas sustentáveis. Esta é mais uma falácia que comumente aparece: sim, empresas destes setores podem ser sustentáveis; bem como produtores de carros elétricos ou de pás eólicas podem não ser.
 
Este racional estende-se também aos investimentos. Mais de 2 mil estudos acadêmicos foram realizados para analisar a performance de fundos que incorporam as questões ESG em relação aos seus pares tradicionais e fortes evidências foram encontradas em favor dos investimentos sustentáveis. Uma compilação destes estudos, publicada no Journal of Sustainable Finance & Investment, demonstra a consistência desta conclusão: em apenas 10% de todos os estudos realizados houve desempenho pior do investimento ESG; em 90% dos casos o resultado foi neutro ou positivo.
 
Os mitos e lendas fazem parte do imaginário popular. Mas não passam de folclore. Neste momento em que muito se debate sobre responsabilidades, é essencial desconstruir crendices e aceitar como possível aquilo que aparentava ser um paradoxo.

Valor Econômico: ESG não é matemática! (e porque isso pode ser bom para o Brasil)

Sou amigo dos números. Passei toda minha adolescência disputando Olimpíadas de Matemática e descobri o óbvio: os números, se retorcidos e torturados, podem concluir qualquer coisa, inclusive a verdade.
 
O raciocínio cartesiano, predominante no mercado financeiro, induz a quantificar tudo. Não há dificuldade em considerar questões de altíssima complexidade, solucionadas com sofisticados algoritmos. Mas há dificuldade de se lidar com o abstrato e tratá-lo como tal.
 
Os amplamente utilizados ratings de crédito têm como objetivo avaliar a possibilidade de uma companhia (ou governo) saldar sua dívida. Os ratings corporativos das três maiores agências do mundo (Moody´s, S&P e Fitch) possuem uma altíssima correlação entre si (0,9), indicando uma enorme convergência de opiniões. Por quê? Pois, afinal de contas, estão realizando análise quantitativa de balanço. Números analisando números.
 
Entretanto, ao transportarmos a mesma leitura para o mundo ESG, nos deparamos com uma realidade completamente distinta. As três maiores agências de ratings ESG do planeta (MSCI, Sustainalytics, Reprisk) possuem uma correlação de 0,3 na atribuição de suas notas ESG. Em bom português, não há alinhamento algum entre elas. Daí podemos alçar uma questão: será mesmo o ESG mensurável?
 
Comecemos pelo básico. Qual a origem dos dados? Se vamos partir da hipótese de que uma análise quantitativa seja possível, é pré-condição óbvia haver uma disponibilidade de informações para realizar tal análise: premissa falsa. Os Relatórios de Sustentabilidade são voluntários e seus dados, seletivos. É natural uma empresa querer mostrar o que é bom e esconder o que é ruim, curiosamente tornando mais importante aquilo que não consta no relatório em detrimento daquilo que consta. Paradoxalmente, empresas transparentes que realmente expõe suas entranhas acabam sendo prejudicadas em relação àquelas que transluzem apenas o mundo do “faz-de-conta”.
 
É bem verdade que há um grande esforço de investidores e de organizações como o GRI e SASB para aumentarem a consistência do reporte e transparência de dados ESG. Será que quando esse dia chegar conseguiremos avaliar ESG quantitativamente?
 
As questões parecem ser um tanto mais complexas do que isso.
 
Diversidade, por exemplo, é um fator ESG relevante, uma vez que uma gestão diversa toma melhores decisões. Mas não parece simplório e reducionista demais olhar gênero e raça através de números, tomando conclusões apressadas de que conselhos são diversos por terem tais recortes, como se os recortes em questão apresentassem um pensamento monolítico e desconsiderasse as individualidades de seus membros? E se “aquelas três” celebradas conselheiras só estiverem lá por serem filhas do controlador? E se o mesmo tivesse tido filhos homens haveria diversidade? A tal diversidade é legítima e perene? Isso a estatística não mostra.
 
Outra métrica importantíssima ESG é o NPS (Net Promoter Score) ou Índice de Satisfação do Cliente. Investidores ESG entendem que uma companhia deve trabalhar orientada a servir bem o seu consumidor, entregando bons produtos e um excelente nível de serviço, fidelizando-o.
 
Uma das tradicionais formas para o varejo medir o NPS é o encantômetro, um dispositivo em que o cliente aperta uma “carinha feliz” se foi bem atendido e uma “carinha furiosa” se ficou insatisfeito. Pois bem, imagine que você entrou em uma loja no verão e estava um calor insuportável e a loja não possuía ar condicionado. Ou ao entrar na loja percebe que está mal cheirosa. Ou com uma fila quilométrica. Ou não encontra o item que procura. Ou o produto está com preços abusivos. Ou o vendedor te destratou. Enfim, há inúmeras razões para fugir da loja antes de passar pelo caixa.
 
Por outro lado, quando passa pelo caixa, provavelmente encontrou o que queria, o preço estava adequado e não foi mal tratado. Há varejistas que posicionam o encantômetro na porta, outras no caixa. Comparar os dois números sem levar essa questão em consideração soa insensato, não? No mundo dos scores, ratings e matemática, a falta de parametrização de dados não é levada em consideração. Este é o caso do NPS. Extrapole este exemplo para outros tantos.
 
Na ânsia desvairada de querer traduzir tudo em números, o mercado peca e perde a essência do que seja a boa prática ESG, que reside na cultura corporativa amparada à ética, boa governança e respeito aos múltiplos stakeholders.
 
Isso não significa que não tenhamos que medir e reportar. Muito pelo contrário. Métricas são essenciais, bem como o reporte profundo, denso e transparente. Sem métrica, não há avanço na prática. Mas a extrapolação do uso da métrica para além do que a métrica se propõe a fazer põe em risco a própria adoção da filosofia.
 
O Brasil está muito atrasado na agenda ESG e, paradoxalmente, isso pode ser bom.
 
Temos sido fustigados, em todas as esferas, por questões de governança corporativa. O investidor brasileiro, por exemplo, já aprendeu que uma empresa pertencer ao “Novo Mercado” não significa, necessariamente, um predicado de boa governança. Já amadurecemos ao entender que ética não pode ser resumida em um “checklist” e que tentar quantificar o inquantificável quase inexoravelmente resulta em um preço alto demais a se pagar.
 
No mundo, enxergar ESG através de ratings scores é a visão predominante. É tão insólita que se esquece, inclusive, que governança, cultura corporativa e sustentabilidade é regional e não global.
 
Temos, Brasil, uma vantagem de ser dos últimos a incorporar ESG: a escolha de sermos originais ou copycat é só nossa.

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