Cuidado! Um tsunami chamado ESG

está chegando cheio de riscos!

Investidores brasileiros estão pouco acostumados com a palavra “sustentabilidade”, mesmo com o recente aumento da atenção a estes temas. Ainda são poucos os que incorporam fatores socioambientais em suas análises atualmente e, ainda assim, por vezes são marginalizados em seus argumentos, sendo tratados como periféricos ou ideológicos.

Nos Estados Unidos e, principalmente, na Europa tais fatores têm ganhado relevância nos últimos anos e já se encontram no topo da agenda entre os investidores institucionais. Embora os conceitos de ESG (em português ASG – fatores ambientais, sociais e de governança) datem do século XIX, eles só ganharam impulso a partir de 2001. Paradoxalmente, o Unibanco foi um dos grandes percussores do movimento.

A famosa carta em 2004 de Kofi Annan, Secretário Geral da ONU, conclamando as maiores instituições financeiras a integrarem os fatores de ESG em suas atividades de mercado de capitais, e um novo impulso da ONU em 2015 com o lançamento dos ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável), foram definitivos para a propagação do ESG.

Em 2019, o desastre de Brumadinho, os incêndios na Amazônia e o vazamento de óleo no Nordeste colocaram um grande holofote sobre o tema ambiental no Brasil, fazendo com que um tema que era até então circunscrito a poucos interessados ganhasse a manchete dos noticiários. O “golpe de misericórdia” veio em janeiro de 2020, quando a BlackRock, maior gestora de ativos do planeta, declarou que a mudança climática passará a estar no cerne de sua política de investimentos.

Já não mais é possível ignorar o ESG.

Como um tsunami, os conceitos de ESG atropelarão investidores, analistas e empresas, que terão que tirar o atraso e se adaptarem a este novo mundo. O que perguntar? O que reportar? O que é relevante? Como incorporar tudo isso nas contas?

 

E é daí que vem o alerta: o desembarque do ESG no Brasil traz riscos. E eles são enormes!

Para início de conversa, é leviana demais a maneira maniqueísta que muitos tratam o ESG, tentando separar os bons e os ruins. ESG é muito mais complexo do que isso. Ao simplesmente adotar um filtro de exclusão buscando eliminar as empresas altamente controversas, automaticamente estar-se-ia tratando tudo que não é extremo como se igual fosse.

A complexidade do tema requer uma sofisticação analítica a qual os atores no Brasil ainda não possuem e, com isso, estão sujeitos a tomarem decisões equivocadas, seja por desconhecimento, seja por estarem apoiados em falsas premissas. Enfatizo: falsas premissas.

O crescimento abrupto do ESG em um campo ainda fértil tem provocado outro fenômeno denominado greenwashing, que nada mais é do que empresas, fundos e investidores tentando parecer possuírem melhores práticas do que de fato possuem.

Ou seja, estamos iniciando no Brasil um novo capítulo na vida dos investimentos, no qual dois perigosos fenômenos coexistem: o desconhecimento e o greenwashing. Isolados, são perigosos. Juntos, são uma verdadeira bomba.

Quando fazemos a análise financeira de uma empresa, é natural iniciar o trabalho examinando as demonstrações financeiras, que são reportadas em documentos trimestrais obrigatórios. Nestes, figuram também, obrigatoriamente, as contas contábeis mais relevantes, como receita, custo, despesa, dívida, patrimônio, entre muitas outras.

A análise socioambiental, quando iniciada pelo Relatório de Sustentabilidade, já inicia com dois problemas. O primeiro é a não obrigatoriedade de sua divulgação. E o segundo é a não obrigatoriedade e nem padronização de seu conteúdo. É muito possível (e igualmente frequente) empresas não apresentarem tais relatórios, bem como apresentarem relatórios que desviem a atenção do verdadeiro problema.

Por exemplo, uma empresa de varejo têxtil deveria endereçar em seu relatório de sustentabilidade as questões de uso de água, gestão de resíduos, crueldade animal, mão de obra infantil ou semi-escrava, que são os fatores críticos para a sua atividade no âmbito socioambiental.

Contudo, é bastante comum encontrarmos um relatório repleto de interessantes iniciativas na área de educação ou apoio a ONGs, que são, sem dúvida, louváveis, mas que não tratam do que deve ser tratado. A empresa, neste caso, vende-se como socialmente responsável, sem que de fato o seja. Desavisado, o analista conforta-se por entender que a empresa faz o bem. E erroneamente a considera como tendo alto padrão de ESG.

A questão é ainda mais complexa. O trabalho do analista não é nada trivial, mesmo quando as companhias corretamente apresentam as informações. Companhias estatais brasileiras, por exemplo, pontuam muito bem no lado social dos rankings globais de ESG por terem um baixo turnover de funcionários, mas tais rankings não levam em consideração que isso não advém das políticas de retenção, mas da impossibilidade legal de demissão.

Os analistas apressados estranham que os shoppings brasileiros de maior consciência ambiental têm péssimos índices de gestão de lixo comparados com os americanos, mas deixam de considerar que os shoppings aqui têm uma área de alimentação muito mais relevante do que nos Estados Unidos.

Aliás, se simples fosse, concluiríamos que a Natura é a companhia mais corrupta do país. Afinal, segundo seu próprio relatório anual, em 2018 foram identificados 23 casos de corrupção interna. Serão eles os mais corruptos ou os mais transparentes? A resposta é óbvia...

Não podemos esquecer das lições da nossa história recente: os maiores escândalos brasileiros de governança corporativa ocorridos na última década ocorreram justamente em empresas do “Novo Mercado”, que justamente deveriam ostentar o selo da boa governança. Ao tentar simplificar um complexo tema com questões puramente objetivas, perde-se o entendimento do todo, tornando as conclusões precipitadas e errôneas.

O exponencial interesse dos investidores institucionais por temas socioambientais certamente implicará na melhora dos padrões nas companhias, mas, paralelamente, levará empresas, fundos e gestores a se venderem pelo que não são ou fazem.

O tema, que antes era descuidado, agora exige cuidado redobrado.

 

O tema, que antes era descuidado, agora exige cuidado redobrado. 

* - texto na íntegra do artigo publicado na edição de fevereiro da Revista Investidor Institucional

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